Alfredo tentava disfarçar, mas eram visíveis as lágrimas em seu rosto. A voz parecia-lhe sufocada. Ele preferiu não se expor na sala de espera do terminal rodoviário. Em momentos tristes como aqueles é muito bom contar com a presença de um amigo, de preferência que fale só o indispensável. Geralmente as pessoas costumam narrar todas as circunstâncias que envolveram a morte de entes queridos. Encostou o carro nas proximidades e ficou fazendo companhia para a esposa, Cremilda. Os dois tentavam evitar comentário sobre Clarinha, filha única do casal, mas descobriram que se sentiam melhor ao falar sobre ela. Recordavam os momentos felizes que passaram juntos, os três. ‘‘Éramos felizes e não sabíamos’’, arriscou Alfredo a surrada frase que tem justificado a negligência de muitos. Cremilda prometeu que tudo seria diferente do que vinha acontecendo ultimamente e procuraria fazer voltar a felicidade ao lar de Clarinha até que... Alfredo completou: ‘‘Até que o Todo Poderoso a levasse de nós...’’
O ônibus que trazia Clarinha se aproximava do terminal. Alfredo e Cremilda se comprometeram a manter a aparência fazendo de conta que não haviam entendido a gravidade da situação em que a filha deles se metera. O texto do telegrama era claro e objetivo, não deixando dúvida alguma: ‘‘Fui reprovada nos exames vestibulares, estou grávida e com câncer...’’ Alfredo tirou do bolso um lenço amassado e outra vez impediu que lágrimas rolassem em seu rosto. E ponderou: ‘‘Juro que não ligaria a mínima se ela fosse reprovada mil vezes no vestibular..,’’ Cremilda adiantou preocupação com outros fatores: a criança nasceria quando? Sobreviveria? Quem é o pai? Assumirá? ‘‘Se for necessário cuidaremos do bebê, não é?’’ ‘‘Evidentemente, e com bastante alegria e a mesma felicidade que tínhamos quando Clarinha era bebê...’’
O coletivo, moderno e confortável, manobrava no interior do terminal para deixar os passageiros. Alfredo e Cremilda se aconselhavam mutuamente sobre o novo tratamento que doravante iriam dispensar à filha. Concluíram que evitariam mencionar o nome da pertinaz moléstia e por enquanto nenhuma pergunta fariam sobre a gravidez. Esperariam que a filha espontaneamente lhes contasse sobre a criança. Jamais a constrangeriam. Falariam, sim, e muito sobre o vestibular. Afinal, como alguns são aprovados, outros têm que ser reprovados. Nada como esperar o tempo passar...
Os pais estamparam um sorriso amarelo enquanto acenaram para Clarinha, que tomava cuidado para não tropeçar nos degraus da escada. Ao completar a descida foi direto abraçá-los. Ela, demonstrando um sorriso natural, beijou a face da mãe e comentou: ‘‘Por que esse rostinho tão gelado, mami?’’ Ao abraçar e beijar o rosto do ‘‘papi’’ censurou-o: ‘‘Que é isso agora? Nada de choro’’. Não adiantou. Os três se envolveram num só abraço e ninguém conseguiu impedir as lágrimas. Clarinha precisou falar mais alto: ‘‘Posso acabar com a amargura de vocês. A única verdade naquele telegrama é que não passei nas provas’’. O pai interveio: ‘‘Quer dizer que a história do câncer e da gravidez não é verdadeira?’’ A resposta veio clara e indubitável: ‘‘Exatamente, pai. Inventei as duas coisas por medo de repreensão. Continuo virgem e minha saúde é perfeita. Ao menos os exames revelaram isso...’’
Outro abraço envolveu os três até que Alfredo disse: ‘‘Graças a Deus podemos voltar a sorrir. Vamos pra casa depressa porque aqui há uma jovem disposta a voltar aos estudos para de novo tentar o vestibular. Se não der nos próximos exames, haverá o seguinte, depois o outro e o outro. Um dia haverá aprovação...’’

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