Carlos da Silva
Rodolfo recebera seu carro novo duas horas atrás e fora mostrá-lo à namorada, no apartamento. Mas ela estava no dentista e ele deixou recado que passaria mais tarde. Ao abrir a porta da picape F-1000, 4x4, capota metálica escura, notou que uma mulher bonita e elegante chamara sua atenção. Ambos sorriram como se fossem conhecidos há muito. Exatamente nesse ponto de distração sentiu o cano do revólver na cabeça enquanto o assaltante advertia: Quero apenas o carro. Isto não é bem um assalto. Apenas empréstimo. Se for bonzinho vai sobreviver. Se ficar de bico fechado só tem a ganhar. A vítima fez o que todo mundo deve fazer. Não reagiu e balbuciou um tudo bem... enquanto entregava as chaves e o número do seu telefone, a pedido do marginal.
Desolado pela perda do carrinho, Rodolfo deu de ombro e suspirou aliviado: Ao menos continuo vivo... Uma semana depois recebeu estranho telefonema: voz agradável de alguém que se dispunha ajudá-lo a recuperar o veículo, que estaria no Paraguai. É batata. Pago toda despesa se não for o seu carro. Se for você me paga 500 reais. Vamos na minha kombi. Até a placa é a mesma ainda. Era Alfredo que acabava de ingressar no mundo do crime. O papel dele era estimular Rodolfo a ir buscar o carro no Paraguai. Uma moleza. Mas não esqueceu da advertência: Ninguém deve saber do que estamos fazendo. Dá zebra se os homens souberem... Como o combinado, saíram de madrugada pretendendo voltar o mais tardar na noite seguinte.
Viagem relativamente agradável. Seria melhor não fosse pela expectativa de recuperar o veículo. Rodolfo se perguntava por que Alfredo insistia em acompanhá-lo, como ele soube o número da placa e descobriu outros detalhes, como o nome completo da vítima. Mas resolveu não criar caso. Bastaria o carrinho de volta.
Quis ser simpático com Alfredo e ofereceu-lhe almoço numa churrascaria cheia de turistas. A partir daí a conversa de ambos era pouca. Alfredo não escondeu sua preocupação e disse que precisava fazer um telefonema antes de deixarem o restaurante, após o que parecia mais otimista. O objetivo agora era um estacionamento de veículos em Cidade do Leste. Rodolfo parecia não acreditar. Lá estava, ainda novinha e reluzente, sua picape F-1000. Antes de entrar nela era preciso pagar três diárias, elevadíssimas em se tratando de um terreno que parecia abandonado.
Alfredo ditava as normas da volta para Rodolfo cumprir: Você vai dirigindo a picape e eu a kombi que nos trouxe. Não esqueçamos meus honorários, que devem ser pagos agora. Totalizam 500 reais apenas, incluídos os serviços no retorno, pois vou dando cobertura para neutralizar qualquer problema. De vez em quando paravam num local aprazível, mas sempre preocupados, assaltante e vítima, com a possibilidade de aparecer algum policial. Ninguém parou ou indagou algo.
Na última parada, os dois condutores, cansados, conversaram mais despreocupados. Alfredo explicou a alteração no esquema: a partir de determinado ponto Rodolfo deveria seguir uma moto preta. Foi assim até um portão branco e, no fundo, pequena garagem onde cabiam apenas dois veículos. A picape parou e recebeu a visita de cinco homens que, para desespero de Rodolfo, destruíram as laterais, teto e assoalho da F-1000, de onde retiraram dezenas de pacotes de um e dois quilos de pó branco, muito parecido com açucar. Assim que a operação terminou Alfredo se despediu de Rodolfo, aconselhado a esquecer de tudo para continuar desfrutando as belezas da vida...
Ao se movimentar para se apoderar da picape surgiu aquela bonita e elegante jovem encarregada de desviar a atenção de Rodolfo, quando ele foi rendido pelo assaltante Alfredo. Ela sorriu e prometeu: Desculpe qualquer decepção que lhe tenha causado. Fico devendo e quero pagar. Posso telefonar? Rodolfo desviou dela o olhar e, franzindo o cenho, acelerou o veículo. Nada disse, mas só pensou: Perder duas vezes é burrice...





