ReproduçãoA multidão impaciente aumentava enquanto passavam os minutos. A expectativa era intensa praticamente em toda a Cachoeira do Arco-Íris, embora ninguém tivesse tido o prazer de conhecer pessoalmente padre Eustáquio, tido como preocupado com os problemas sociais. Pelo jeito ele iria encontrar muito o que fazer em Cachoeira, cujo desenvolvimento econômico dependia exclusivamente da agropecuária. Nesta área os problemas eram iguais aos de qualquer lugar. Latifundiários se locupletavam e aplicavam em investimentos na Capital ou na aquisição de mais terras nas proximidades. Enquanto isso o pequeno agricultor dependia do fruto do trabalho braçal para se alimentar no dia seguinte. Todo trabalhador tinha esperança de que as coisas iriam melhorar e via na chegada do novo vigário o restabelecimento da fé em Deus e em todos os santos. Parecia que as coisas iriam mudar. Há dois anos os cachoeirenses não viam um sacerdote. Enfim, chegava o dia esperado.
De trem padre Eustáquio não viria porque a chuvarada danificara parte dos trilhos e a vinda de trem só seria possível depois de um mês. Poderia ser de ônibus, que chegava todo dia, quando chegava. Na seca eram buracos e com as chuvas era impossível trafegar. Estradas escorregadias e perigosas impossibilitavam qualquer aventura.
- ‘‘Parece que no subidão tem um carro parado’’, anunciou Alfredo, aconselhando:
‘‘Vamos ajudá-lo se for carro mesmo e não se mover em meia hora’’. Quando decidiam quem iria, o veículo da subida se moveu e, resfolegando estrada abaixo, se dirigia ao centro do ‘‘ponto mais próximo do paraíso’’, deixando na rabeira um novelo de pó.
Ainda bem que o carrinho, um fordinho 29, totalmente reformado, diminuia a velocidade enquanto se aproximava. Bastou desligar o motor e um dos puxa-sacos gritou: ‘‘Viva o padre Eustáquio!’’ Depois de dar as boas-vindas ao religioso, Alfredo se apresentou: ‘‘É comigo mesmo. Sou o prefeito moral da cidade. O legal quase nunca aparece, tamanho o serviço que tem tido...’’ De cara padre Eustáquio entendeu a característica do terreno minado em que pisava.
Alfredo dispôs-se a levar o novo vigário para seus aposentos, na casa paroquial, uma espécie de pensionato que acolhia os sacerdotes residentes ou em trânsito. Ao chegar, desceu a bagagem, se despediu e prometeu: ‘‘Descanse bem. Vou levar o pé-de-bode para um banho geral. Estaremos de volta amanhã de manh㒒. O padre começou a gostar do ajudante e concordou. Manhã seguinte, antes da hora até, lá estavam Alfredo e o reluzente fordinho, intactos. E foi direto ao assunto: ‘‘Vamos levar a bagagem porque aqui não vai ficar. Vento frio, casa desoladora e silêncio sepulcral. Vou levá-lo a outro lugar, o que eu devia fazer primeiro...’’
- ‘‘É aquela casa cor de cinza. Hotel das Flores só no nome. Faz meses que não vejo flores por aqui. O estabelecimento é do ‘seo’ Luís, que reside aqui com a esposa e um casal de filhos, uma mocinha prendada e bem-educada, a Heleninha. O senhor vai gostar deles... Realmente gostou. Ficavam todos conversando até por volta da meia-noite. Iam dormir mais tarde quando havia serenata. E os dias iam passando. Padre Eustáquio levantava-se às 5 para a missa das 6, tomava um lauto café em que predominavam frutas e se alimentava muito bem no almoço, mas no jantar preferia algo menos substancioso. Atenção especial ele dedicava ao fordinho 29 e justificava: - ‘‘Automóvel como este, inteiro e funcionando, só fabricando de novo’’. Ninguém se atrevia sequer a pôr as mãos nele. Ninguém, exceto Alfredo, ‘‘assessor técnico da viatura’’, como ele se intitulava brincando.
Fazia frio na manhã seguinte. Alfredo não dormira direito. Residia próximo do hotel e percebeu um movimento maior no quarteirão. Foi ver do que se tratava. O fordinho 29 estava bem guardado. Estavam todos lá, exceto Helena e o padre. Dona Jurema se desmanchava em explicações: ‘‘Ele vai trabalhar de advogado e ela será secretária dele’’. E o fordinho? Ela encerrou: ‘‘É presente ao Luís por tudo que fizemos por ele...’’ Cinco meses depois o veículo ajudou no aumento da população de Cachoeira do Arco-Íris, transportando o bebê para o Hotel das Flores. Para alegria de todos.

mockup