Reprodução‘‘Se Deus gostasse
de atalhos não
nos deixaria
caminhos retos’’Para os antiquários da região a notícia causou efeito semelhante àquele proporcionado pela conquista da Lua, com a agravante de que muitos ainda não acreditam na evolução tecnológica. Juram que se trata de outra simulação. Mas o fato é que não se falava em outra coisa: pertinho de nós, bem alí, cientistas abnegados descobriram uma patena com hieróglifos cuja autoria fora atribuída a Ramsés II. Não é em todo século que se descobre um recipiente de ouro que faz parte da história. Esse fez a comunidade da jóia entrar em pânico. A maioria considerava que valeria a pena qualquer sacrifício. Outros pensavam que seria melhor a formação de uma ‘joint-venture’ para bancar a corrida pelo ouro. Por que não? Os precursores já estavam chegando. Eram estrangeiros de todos os quadrantes, com um objetivo comum: o enriquecimento rápido, mesmo que para isso se transformassem em predadores.
Sabia-se que o ‘‘pratinho de ouro’’ estava na sede do sítio de um caipira, que certamente desconhecia o significado de possuir aquela peça que um dia fora de Ramsés II. Não era apenas uma peça rara, mas única e valiosa. Ninguém entendia por que e como ela fora trazida justamente no fim do mundo para um rude homem do campo, onde, era lícito pensar, a civilização jamais chegaria. Se dezenas de antiquários, de todas as partes do mundo, pretendiam participar da corrida do ouro e da história, por que não Alfredo? Ele também nunca ouvira falar em recipiente de ouro, muito menos em Ramsés II, mas a possibilidade de conseguir algum poderia levá-lo a qualquer lugar. Foi pensando assim que ele arrastou Anita para viajar na companhia dele. Na pior das hipóteses ela iria amenizar-lhe as noites indormidas.
Negativo. Não havia nenhum mapa, gráfico ou desenho em corte indicando a localização de Santa Rita dos Anzóis. Sabia-se que esse lugar era próximo de Ambrózios. Mas onde ficava Ambrózios? Um fiscal da Receita, de olho na colonização, deu uma dica: ‘‘O lance é fretar um táxi-aéreo que possa pousar em Cancura’’. O que ele quis dizer com a expressão ‘‘que possa’’? Não é qualquer piloto que arrisque descer lá. Onde era mato primário, agora são tocos que precisam ser retirados. Só assim a ‘‘pista’’ poderá proporcionar benefício ao tráfego aéreo.
Nunca tantos oraram tanto em tão pouco tempo. Era o único procedimento possível enquanto o teco-teco se aproximava do ‘‘aeroporto’’ de Cancura. Parecia maquininha de fazer pipoca. Era jogado de um lado para outro. Os passageiros eram unânimes: ‘‘Quero ser mico de circo se depois do retorno eu entrar numa porcaria desta’’. Alfredo ponderou que tudo dependeria da quantidade do ouro.
Por exemplo, estamos aqui, de pé, ao sol, esperando o único transporte para Ambrózios: uma carrocinha puxada por dois cavalos. Claro que a referência lembrou certo presidente da República. Não era sequer estrada que os animais trilhavam, e sim caminhos batidos, com dezenas de atalhos. Ali Alfredo citou frase de autor que ele não lembrava: ‘‘Se Deus gostasse de atalhos não nos deixaria caminhos retos’’.
O caminho deixava-nos a impressão de infindável. Mas o cansaço não era só impressão. Descansamos bem e recuperamos as energias em Santa Rita dos Anzóis. Um lugarzinho que nos dá idéia de aconchego. De lá ao sítio do caipira a viagem era num ‘‘carro de praça’’, antigo e velho jipe Land-Rover. Caindo aos pedaços, mas ainda em serviço. Duas horas de viagem e ei-nos na casa do caipira. Ao descer do Land, uma surpresa: curiosamente, um grupo de cerca de dez pessoas comprando e comendo milho verde, próximo dali a turma da melancia, seguida pelos chupadores de manga. Alfredo e Anita preferiram brincar com os gatinhos. Seguramente, uns duzentos. Era gato fedorento que não acabava mais. Tivemos sorte por se aproximar de nós o sr. Pereira, o homem que tinha o privilégio de possuir uma patena de ouro. No meio dos gatinhos a jóia rara, que aproximamos dos nossos olhos para conferir a autenticidade. Fantástico. Alí estavam hieróglifos deixados para a eternidade pelo faraó egípcio. Ao passar das horas aumentavam em número os visitantes. Tratamos de comprar o nosso peixe e dar no pé. Despedimo-nos do sr. Pereira, a quem pagamos pelos três gatinhos malcheirosos e solicitamos uma gentileza: ‘‘Tratamos muito bem dos nossos animais. Não deixamos ninguém passar sede. Podemos levar esta latinha (a patena de ouro) para eles beberem água?’’ A negativa foi imediata: ‘‘Não pode, não senhor. Sem ela, como é que vou vender meus gatos?’’

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