ReproduçãoA águia ia chegar na hora certa, como se fosse admirador da pontualidade britânica. Sobrava tempo para um sobrevôo rápido de Gertrudes. Foi a todos os pontos marcados no mapa e estranhou: ‘‘Ué, cadê o pessoal emergente que ia se acotovelar me esperando? A ‘segurança’ não garantiu que haveria aquela avalanche de gente, empunhando bandeirinhas, à nossa espera? Não vi sequer o pessoal do MST. Pedimos que o aeroporto ficasse o dia todo à nossa disposição, mas só nos deram trinta minutos, quinze antes e quinze depois da nossa chegada. Pode ser represália por termos sido cautelosos na estação aeroportuária? Esses brasileiros ficam chateados com qualquer coisa. Eles precisam entender que na ótica americana todo excesso no item segurança é justificável diante do que vivemos. Brasileiros não estão acostumados com os fatos que traumatizaram nossa gente. Pedimos uma representação limitada do Congresso, mas liberaram geral. E aquele ministro que, por ter o embaixador do principal visitante criticado o país, não aceitou convite para jantar em nossa companhia...’’
‘‘Quase perdemos aquela briga em torno do armamento pesado. Esquecemos de dizer que se destinava apenas ao uso defensivo, como no Vietnã... Imagine se um brasileiro tem coisa melhor e cisma de nos dar uns tiros... Quem ficou com água na boca foi a chefia do tráfico de entorpecentes nos morros do Rio de Janeiro. Podemos até pensar em exportar para cá esses fuzis. Só um tiro dele derrete uma limousine’’. Gertrudes tem que atender a uma chamada no digital. É o chefe da segurança em dúvida sobre umas emas que vivem mansamente num lago enfadonho de um palácio que eventualmente poderemos visitar. Dizem que aqueles bichos são ferozes e barulhentos. A ordem é caçá-los e interná-los na tal Granja do Torto. Na África as emas andam em fila indiana. Pelo menos a que eu vi andava...
Dois itens importantes que a segurança não pode descuidar: o Lago Paranoá tem surpreendido incautos frequentadores. A águia recebeu informação do pessoal da inteligência de que tubarões famintos surgem ali de vez em quando. As mesmas fontes ficaram surpresas com o perigo que representa aos circunstantes o mastro da bandeira, extraordinariamente alto, no centro de Brasília. A águia ponderou: ‘‘Imagine se isso cai sobre um dos nossos...’’ Arguto empreendedor em negócios imobiliários, o líder do grupo de visitantes confessou seu entusiasmo: ‘‘As dimensões de terra aqui devem ter enriquecido muita gente.
Se aqui houvesse corrupção...’’
Curiosamente, no mesmo dia da chegada da águia vazou a notícia de que o Brasil comprou (adivinhe onde) nada menos do que 176 moderníssimos tanques de guerra. Não se sabe onde eles serão utilizados. Será na colheita de laranja, soja e trigo? Esse equipamento estava guardado pela ferrugem, obsoleto desde a queda de Saigon. Nossa indústria bélica não basta para manter a hegemonia em caso de conflito armado localizado? Aliás, qualquer estrategista sabe que para acabar com qualquer hostilidade bastará apertar um botão vermelho...

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