Carlos da Silva
Alfredo tinha razões suficientes para enfiar a viola no saco e procurar outra freguesia na praia. Tudo dava errado. Para apanhar uma simples chave do apartamento foi necessário andar a cidade inteira. Da Marilda, que deveria esperá-lo, nem mesmo um recado. Restava a dúvida: esperá-la, correndo o risco de ficar na saudade até levantar acampamento, ou conseguir uma substituta à altura. Nada de precipitação. Era preciso dar um tempo. Melhor fazer isso na boate que atendia pelo sugestivo nome de Night and day. Naquele mafuá a mulherada desplugada se reunia todas as noites na tentativa de aumentar o faturamento. Mas mesmo com muita boa vontade era difícil escolher dentre as melhores. Renata levava jeito e poder-se-ia dizer que ela receberia nota dez em todos os quesitos, exceto o gogó, que denunciava sua condição de travesti. Durante o dia ela se transformava nele, que atendia a clientela de uma farmácia. Quase caiu nas graças de Alf, que ficou decepcionado ao constatar a característica principal de Renata, que sorriu amarelo e piscou um só olho para Alf, como dissesse: Desculpe, fiz o que pude.
Na parede um quadro anunciava Música ao vivo, que era perpetrada pelo Quinteto da Lua, pródigo num tum-tum-tic-tum até o fechamento, alta madrugada. A performance dos artistas pernas-de-pau justificava a cobrança do consumo obrigatório: 50 reais per capita. Mais caro seria pago pelos destemidos que ousassem consumir uísque, fabricado por ali mesmo, sem o mínimo cuidado com o estômago do respeitável público. Noitada assim pode pressupor ingestão de alimento, mas as condições daquele estabelecimento eram absolutamente desanimadoras em assepsia. Até mesmo Alfredo, geralmente cauteloso em decidir questões assim, preferiu deglutir sanduíche de pernil no barzinho da esquina, onde não havia mau cheiro e esquadrilhas de moscas, notadamente varejeiras. Alfredo lamentava: Vou dormir sob protesto. Minha agenda continua como cardápio de restaurante cinco estrelas. Não comi ninguém até agora.
Alf iria precisar de muito otimismo no dia seguinte. Ele levantou eufórico com a chegada de Marilda e no meio do caminho decidiram tomar café reforçado numa famosa confeitaria no centro da cidade. Ao voltar para o carro depararam com um guarda de trânsito, pé direito sobre o pára-choque dianteiro. Na esperança de quebrar o gelo, Alf desejou-lhe bom dia e manifestou a esperança de que o veículo lhe fosse confortável... Rispidamente o policial respondeu: Só quero ver os documentos e o equipamento obrigatório. Alf contemporizou: Está tudo aí. Mas não entendo como uma cidade que vive essencialmente do turismo recebe asperamente dois contribuintes que cometeram o crime de, às 7 horas da manhã, parar o carro na proximidade de uma confeitaria. Imagino como seria o tratamento que nos dispensariam se fôssemos fugitivos...
O equipamento obrigatório foi checado um a um. Sob o prisma do representante da lei o triângulo estava torto e não parava em pé, o macaco emperrado, o extintor de incêndio vencido, os cintos de segurança cortados ao meio, faróis quebrados, lanternas do freio queimadas como os sinaleiros traseiros e o estepe velho demais. O policial terminou a vistoria e voltou a atenção para os documentos. De repente: Achei o que procurei. Seguro e habilitação vencidos. O pior estava por vir. O guarda foi incisivo: Sem estes documentos atualizados o senhor não pode dirigir o carro. Vou recolhê-lo. Tome as providências que achar cabíveis...
Alf achou que havia algo estranho no episódio. Por via das dúvidas foi à delegacia de polícia mais próxima e registrou queixa do furto de que fora vítima. Horas mais tarde policiais trocaram tiros com assaltantes de banco. No dia seguinte os jornais noticiaram o fato com este título: Falso policial apreende veículo para usá-lo em assalto a banco.





