Carlos da Silva
Oduvaldo acordou sentindo frio na espinha. Demorara para conciliar o sono e agora encontrou dificuldade para saltar da cama. Madrugada ainda, um ladrão empurrava sua cabeça com a ponta do revólver. Imaginou que saindo da linha de tiro teria mais chance de dialogar com o ladrão e sobreviver. Evidente. Alimentava até mesmo a idéia de que a arma, um Taurus 32, fosse de brinquedo, pois parecia não refletir o brilho da luz, dando a impressão de que era totalmente de plástico. Conseguiu forças, deixou a cama e, de pé com as mãos na cintura, perguntou ao ladrão quem o autorizara a invadir a casa. E o repreendeu perguntando rispidamente o que pretendia. O marginal respondeu simplesmente que ninguém precisava de ordem para entrar e praticar o assarto. Valdo, para os íntimos, ficou possesso: Aguentar você aos pés da minha cama, vá lá. Mas não tolero ouvir seus erros de linguagem. O meliante quis saber o significado de erros de linguagem... e emendou: Não preciso de professor de português. Por ora quero apenas grana, muita grana. Por isso entrei na parada. Valdo riu jocosamente e afirmou: Pode procurar à vontade. Fique com tudo que encontrar... Se eu tivesse grana a guardaria em casa? Os bancos ainda são confiáveis.
Uma luz no fim do túnel. O assaltante pisou em falso sobre um tapete que deslizou, levando-o quase um metro adiante. O revólver saiu-lhe da mão e quando Oduvaldo se jogou sobre a arma a fim de arrebatá-la, encontrou as mãos de Anastacio, o assaltante. Mas com esse contato deu para perceber que a arma era realmente de brinquedo. Parecia até mesmo estar sem munição. Mas não podia haver dúvida. Agora é arriscar e contar com a sorte. A estratégia de Valdo era esperar outra bobeada do marginal e tomar-lhe a arma. Era preciso jogar fora muita conversa mole. Ficou sabendo de toda a biografia do ladrão e dos familiares dele. Ensinou-lhe questões de Português, sugerindo-lhe que fizesse como grande parte dos brasileiros: a adoção de termos que enriquecem o vocabulário como zona de exclusão, sociedade emergente, resgatar a cidadania etc. O marginal gostou da idéia, mas cometeu outro deslize: ficou embevecido com peculiaridades do vernáculo e esqueceu a arma sobre uma cômoda.
Mais rápido agora, Valdo conseguiu apanhá-la e comprovar que se tratava apenas de brinquedo de criança. Mas como me atormentou, confessou. Não afeito a exercícios evitou confronto físico com Anastacio. Apenas dialogava com ele e quis saber o que continha uma bolsa retangular de couro que Anastacio trazia consigo. Era nada menos que dinheiro: dólares e reais, cédulas novinhas. Cerca de cinco mil. Oduvaldo lamentou: Então você se apoderou do meu dinheiro que estava na gaveta do criado-mudo? As cédulas haviam desaparecido da gaveta do móvel, onde se constatava apenas a presença de uma folha branca, dobrada. Anastacio olhou fixamente para Valdo: Sem ressentimento. Você merece... Fique com esta grana que roubei de madrugada na casa de câmbio. Assim provo que nada tomei de você, um cara legal. Anastacio se desculpou, apresentou despedida e foi embora.
Oduvaldo se dirigiu outra vez à gaveta do criado-mudo. Abriu a folha branca e leu: Du, peguei aquela grana e devolvo amanhã. Abraço do Orozimbo Então o dinheiro estava em mãos confiáveis, sem problema. E o monte de dólares e reais que o ladrão lhe dera? Toca insistentemente a campainha da porta. Oduvaldo, meio titubeante, se apressa para abri-la. Lá fora alguém gritou: Abra logo se não a gente arromba e fica pior. Abriu e cinco policiais entraram. O da frente, gordo, tipo bunda-mole, explicou: Nada não, companheiro. Queremos aquela grana que você enrustiu. O delegado deseja apenas compará-las com os números que a casa de câmbio mandou. Fica frio e vamos lá com a gente...





