ReproduçãoAo contrário do que muitos imaginavam, a vidinha de Alfredo até que era insípida. Limitava-se a ir de casa para o trabalho, uma agência bancária, e dali para casa, modesto apartamento no centro da cidade. Há mais de vinte anos era a mesma coisa. Para diminuir o tédio ele movimentava como ninguém o lado romântico. Não se podia chamar de ‘vida a dois’, que ele considerava utopia, pois era sempre a cinco, seis ou sete. De vez em quando cometia algum deslize, mas sabia como ninguém encontrar a solução e contornar o problema. Por isso ele portava sempre a agenda e nunca dava um passo sem consultá-la. Sem ela eram inevitáveis os tropeções.
Alf levava a sério o axioma de que ‘o peixe morre pela boca’. Para evitar equívocos em diálogo com as amantes ele mantinha um relatório, que denominava ‘plano de vôo’, das principais características da personalidade, da ‘riqueza’ do vocabulário, de conhecimentos gerais e das atividades profissionais de cada parceira. Isso lhe permitia manter razoável entendimento com seus amores. Considerava terríveis eventuais cochilos. Contava até vinte antes de responder ou formular indagação que pudesse denunciar a existência de uma terceira pessoa: ‘‘Pensei que você iria experimentar hoje aquele perfume...’’ Tinha que haver certeza na observação, se não ela suscitaria resposta constrangedora como: ‘‘Ficou maluco? Faz um ano e meio que você me deu o último perfume...
Pera aí... Que negócio é esse? Onde está a piranha que leva vantagem? ’’
Uma resposta objetiva assim só poderia ser dada por Anita. Alice faria transparecer simpatia e elegância: ‘‘Não querido, usei o vidrinho durante mais de um ano. Quanto ao que eu deveria usar, primeiro devo ganhá-lo...’’ Se confusões do gênero eram determinadas por um simples perfume, imagine questões mais complexas, como financeiras, profissionais, saúde etc. Trocando em miúdos, Alf vivia sobre o ‘fio da navalha’. Por isso ele criou uma espécie de punição via cartões coloridos, como em jogos de futebol. Ao primeiro desentendimento causado por ‘ausência de colaboração’ ele lançava o nome da infratora no cartão amarelo etc. Quase sempre havia reclamação, mas ele explicava: ‘‘Cabe a alguém impor a ordem. Se eu não o fizer, como ficará o nosso exercício de liberalidade?’’
Nunca havia data disponível, por mais convidativa que fosse a candidata. Alf se jactava por isso. Certo dia caiu-lhe nas mãos a jovem e linda Renata. Era como dar milho a bode. Ele driblou o sistema defensivo e levou-a para conhecer o apartamento de um amigo. Mas Alf, por maior que fosse o esforço, não conseguiu desempenho igual ou parecido com nas vezes anteriores. Tentou desculpar-se e atribuir a culpa ao uísque e aos salgadinhos. Renata compreendeu a situação do parceiro e tentou ajudar: ‘‘Se fosse só com você, a humanidade estaria feliz com a única frustração. Mas isso ocorre com todo mundo. Mais dia, menos dia, acontece e pronto.’’
O outrora garanhão mantinha-se de cabeça baixa e perdeu o sorriso que lhe dava aparência de um homem feliz. O pior é que as decepções voltaram a acontecer. Algumas das namoradas aconselharam-lhe a procurar um médico, ‘antes que as coisas piorassem...’ O mais grave, na ótica de Alf, é que começaram as deserções. A agenda já apresentava claros e o time definhava. Sob a síndrome do desespero ele decidiu pedir socorro a um especialista, que de cara pediu uma série de exames, inclusive aquele temido pelos homens, o da próstata. Alf jamais concordaria se o problema fosse menos significativo. Para alegria do paciente o médico recomendou outro profissional que lhe explicou: ‘‘Seu problema é causado por um sentimento de culpa. Você está enganando a várias pessoas ao mesmo tempo. Seu inconsciente procura puni-lo até que haja decisão. A propósito, há casos em que o paciente sonha dançar balé. Já pensou nisso?’’

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