Alfredo chegou para o almoço, suspirou de alívio, cumprimentou e beijou a esposa, Dinorá, e percebeu que o clima em casa não era dos mais aconchegantes. Aliás, nem convidativo. Ao voltar do banheiro e preparar-se para sentar levou um susto. Sua companheira jogou sobre o prato dele um envelope contendo notas fiscais emitidas pelo hotel em que ele se hospedara no último fim de semana.
Até aí, tudo bem. O problema era que o documento referia-se a dois pernoites de Alfredo Gemada e esposa. Tudo estava claro e não restava a menor dúvida. Era a última coisa que ele esperaria que acontecesse. Ela o pegara no pulo e adeus apetite. Levantou-se e, gaguejando, tentou se defender: ‘‘Ao menos faça a acusação no condicional. Por que você é tão taxativa. Vamos primeiro analisar e esclarecer os fatos...’’ Dinorá engrossou de vez: ‘‘Esclarecer coisa nenhuma. Tá na cara que você passou neste hotel aquele sábado e domingo em companhia dessa vagabunda que nem tem nome. Tá aqui, ó... Alfredo e esposa. Pelo menos se estivesse escrito ‘Alfredo e uma piranha...’’’
A tática de Alfredo era manter a calma e não precipitar as coisas, jamais oferecendo alternativas do tipo ‘‘Então prove, vamos checar, confie em mim, etc’’. Ele tinha que ganhar tempo para obter provas contundentes. Decidiu demonstrar naturalidade. Retornou à mesa e se esforçou para almoçar, mas todo alimento embolava na garganta. Como represália, Dinorá se retirou para um quartinho que servia de refúgio para o casal em momentos hostis. Ao preparar-se para voltar ao trabalho recebeu a advertência: ‘‘Trate de encontrar uma saída. Não pense que vou deixar barato assim...’’
Do escritório Alfredo contou a estória pelo telefone a Alcebíades a quem solicitou um ‘favorzinho’: relatar o episódio ao gerente do hotel e conseguir dele a transformação do fato num equívoco sem importância, com pedidos de desculpa, simulação de demissão, etc. A promessa de generosa gratificação contribuiu para que o mar ficasse menos revolto no hotel. Alcebíades seria eternamente lembrado se tudo saísse bem... ou não saísse. Sem que Alfredo soubesse, Dinorá telefonara naquela tarde para o hotel, mas o gerente, que ainda nada sabia acerca do esquema, alegou que assuntos dessa natureza tinham que ser tratados pessoalmente. Por isso ela ligou para o marido, na empresa, e exigiu que ambos fossem a Curitiba esclarecer o caso. Ele se prontificou a adquirir as passagens de avião no horário que proporcionasse mais tempo para Alcebíades trabalhar...
Gerente e funcionários do hotel a postos, na expectativa da chegada do casal. Muitos entram e saem. Alfredo se faz carrancudo, franze o cenho e diz que deseja falar imediatamente com o gerente. Dinorá observa a objetividade do marido e ambos são chamados à sala do gerente, que se desmancha em desculpa e explica que em estabelecimento como aquele são comuns confusões do gênero. Astolfo, o gerente chama vários envolvidos no problema e ameaça demití-los na reincidência. Todos pedem mil desculpas e dizem que têm consciência do problema que causaram e que essa bobeada jamais seria repetida etc. etc.
Mas Dinorá quer saber como a expressão ‘Alfredo Gemada e esposa’ fora parar nos documentos do hotel... Mas Astolfo é pródigo em comprovação: ‘‘Veja, senhora, nesta ficha consta somente o senhor Alfredo. No livro oficial apenas o nome completo do senhor Alfredo. Em todos estes documentos está a comprovação da verdade, o senhor Alfredo, tão só e solitariamente. O problema todo foi causado por um garçom, que fora servir-lhe suco de laranja, após o que lançou nesta nota a expressão ‘e esposa’ porque confundiu seu apartamento 712, com o 713, onde realmente o hóspede estivera com a esposa...’’ Dinorá volta a sorrir, como se tivesse ganho uma batalha. Demonstrando constrangimento, manifesta gratidão ao gerente. Também todo sorrisos, Alfredo e Dinorá se despedem e quase no meio do saguão param ao ouvir alguém chamando por ele. Era um office-boy da administração que lhe entrega um pacotinho em cujo rótulo estava escrito: ‘‘Sr. Alfredo e Senhora -712.’’ E a explicação verbal: ‘‘É só uma camisolinha que sua senhora esqueceu aqui na vez passada...’’

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