Arquivo FolhaAté poucos anos atrás era comum a utilização, por jornais e revistas, de eslogans promocionais que acompanhavam o título. Percebia-se a existência de frases comedidas ou atrevidas, como ‘‘Arauto das aspirações populares’’ e ‘‘Defensor da moral e dos bons costumes’’. Mas havia frases que correspondiam à verdade, como a utilizada pelo mensário humorístico ‘‘O Governador’’, que, até o fim da década de 50, era editado em São Paulo: ‘‘O único diário semanal que se publica mensalmente em todo começo de semestre’’. Muitas vezes, premido por circunstâncias econômicas que o respeitável público não precisa saber, pequenos jornais do interior se submetiam a situações constrangedoras. Como no tempo dos ‘coronéis’ (fazendeiros de boa situação financeira que integravam as lideranças políticas), afeitos ao diálogo e sempre dispostos a financiar iniciativas que pudessem beneficiar seu interesse partidário.
Como era o caso do ‘coronel’ Hermenegildo. (Graças a ele o jornalzinho ‘‘Patriota’’ e seu diretor, Silvério, sobreviviam). Começou empunhando enxada e hoje seria bóia-fria. Uma pequena área de terra que herdara do pai o diferenciava dos sem-terra de hoje. Trabalhou duro e, em poucos anos, sem violentar o direito de propriedade de ninguém, honestamente, transformou-se em próspero fazendeiro. Gostava de ajudar as boas causas. Mas o passar dos anos não foi generoso com ele. Sobrevieram problemas de saúde, agravados pelo seu físico franzino e debilitado.
Todo fim de semana, antes de fechar a edição do jornal, Silvério dava uma olhada no ‘coronel’. Domingo após domingo o ‘Patriota’ saía com manchete otimista na primeira página. Certa vez Silvério foi dar uma geral no paciente e, para seu desespero, viu o padre ministrando a extrema-unção ao doente, de terço nas mãos postas. Quando à esposa do coronel colocou-lhe uma vela acesa entre os dedos, no peito, Silvério se dirigiu às pressas às oficinas e redação do jornal e não teve dúvida: na primeira página a manchete ‘‘Morre o coronel Hermenegildo’’. Mas o doente reagiu, leu o jornal no domingo à noite e, na segunda-feira, quase expulsou Silvério, que fora pedir-lhe desculpa. Para provar a boa intenção Silvério prometeu-lhe uma edição especial na quarta-feira, com mensagens publicitárias do comércio em geral. A manchete da primeira página era enfática: ‘‘Felizmente vive o coronel Hermenegildo!’’ No editorial o jornalista foi pródigo em elogios às ‘‘classes médico-científicas, responsáveis pela recuperação da saúde do empresário’’.
Manhã de sexta-feira. Dona Umbelina foi levar ao marido a bandeja com o café reforçado e encontrou-o de braços e olhos bem abertos. E constatou sua morte ‘‘repentina’’. Em seguida foram chegando os vizinhos, amigos, adversários políticos e autoridades civis, militares e eclesiásticas. A viúva encarou normalmente a situação como se a houvesse vivido outras vezes. Até deixou-se fotografar ao lado do caixão do finado. Quem olhasse detidamente poderia detectar indisfarçável sorriso no rosto. Silvério relacionou dezenas de personalidades que ‘‘acorreram ao velório para se juntar aos correligionários, que lamentaram o infausto acontecimento’’.
O sepultamento foi realizado na manhã de sábado. Muitos imaginaram que seria na tarde de sexta-feira mesmo. Parecia ter havido o dedo do Silvério. Da residência do falecido até o cemitério não ficou viva alma sem sobraçar um exemplar do ‘Patriota’. A manchete da primeira página: ‘‘Finalmente morre o coronel Hermenegildo’’.

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