Carlos da Silva
Não havia termômetro a bordo mas o calor parecia de 40 graus. A idéia era chegar o mais próximo possível de Maringá antes que o toró caísse sobre a região. Os agricultores careciam de chuva, bastante chuva, mas não precisava ser tão violenta como prenunciava. A preocupação em chegar era por causa da estrada de terra batida que interligava as localidades. Asfalto, com que todos sonhavam, era só até Apucarana. Além, só sonho ou pesadelo, principalmente para condutores de veículo sem experiência no barro escorregadio. Era necessário saber controlar o volante, acelerar ou frenar. Nesse caso aconselhava-se jamais apertar o pedal. Ao invés de parar, o carro rodopiava. E às vezes a recuperação do controle podia custar caro.
Mas Alfredo tinha experiência necessária para se sair bem em qualquer condição da estrada. Ele pernoitara em Campo Mourão e entendendo o recado do vento frio e do escurecer rápido das nuvens tratou de acomodar seus pertences no interior do jipe de capota de aço. Aceitou outra xícara de café - cujo sabor ninguém mais encontrou igual ou melhor - e pé na tábua e na estrada, cuja manutenção era constante. O barro endurecia e lá estavam as máquinas. Poder-se-ia viajar com tranquilidade, então, desde que a água da chuva permitisse. Parecia que os motoristas haviam pensado igual. E todos tratavam de acelerar para chegar a algum lugar que não fosse atravessado na estrada.
Alfredo era comedido. Na estrada seca e terraplenada ele não ultrapassava 120 km/h. Quando caía a qualidade da superfície ele reduzia a velocidade. Foi o que aconteceu no meio de uma lombada. Devagar também por causa do tráfego intenso ele conseguiu enxergar uma família, três adultos e dois adolescentes, à beira da estrada, pedindo carona. Ele não havia decidido se os levaria. Mas começou a chuvarada, que se converteu em argumento para beneficiar os passageiros em que se transformaram. Foram correndo na direção do jipe. A preocupação maior do líder do grupo eram cuidar bem de uma vara de cinco galinhas e de dois cachos de banana.
Nem bem eles acabaram de entrar e bater a porta desabou um aguaceiro preocupante. Os pingos eram robustos e barulhentos, ainda mais ao cair sobre a capota de aço. Claro que todas as janelas precisaram ser fechadas. Aí começou um drama paralelo. O ar a bordo se tornou irrespirável. Fazia acreditar que os companheiros de viagem não eram usuários de banho. Abundava então aquele odor de porta de galinheiro. Alfredo não aguentou. Polidamente sugeriu que as janelas permanecessem abertas, mesmo que alguns passageiros se molhassem um pouco. E argumentou: Será mil vezes menos do que a chuva que vocês tomariam se ainda estivessem na estrada. A idéia melhorou o ambiente, mas não totalmente. Decidiu então optar por outra alternativa. Iria fazer de conta que dormia no volante, mesmo dirigindo em alta velocidade.
A simulação preocupou os companheiros de viagem, que pretendiam seguir direto para Maringá. Mas surgira um fato novo: o motorista não se revelava tão responsável. Alfredo contou que passara sem dormir quase toda a noite. Não poderia perder uma oportunidade de se despedir de uma namorada que estava se transferindo para São Paulo. E justificou: O senhor sabe como é. Mulher a gente não dispensa de jeito nenhum. E comigo é assim: se não for guarda-chuva e não usar batina, é comigo mesmo... Enquanto falava olhava o rosto dos viajantes, preocupados com a velocidade do jipe, por volta de 120 km/h. A chuva havia chegado ao fim. Alfredo voltou a bocejar e a dormir. Ao menos ele baixava a cabeça sobre o volante enquanto olhava para a frente. E pé no acelerador.
Ronco não adiantava porque o barulho do motor se ampliava na boléia. Mas ele dormia. Foi quando Nicanor, o chefe da família, resolveu cutucar o motorista, até que este simulasse haver levado um susto, tão grande que ele teve de brecar o jipe. Que, que? Por que não me acordaram? Nossa Senhora, quase provoco um acidente... A explicação do carona não demorou: Por favor, dá uma parada naquela vendinha. Nós resolvemos visitar uns parentes que moram aqui perto...





