Carlos da Silva
O Brasil acabara de se definir sobre que lado apoiar na Segunda Guerra Mundial. Hitler não conseguira sensibilizar Getúlio, que se integrara ao bloco Aliado. O Brasil constituía pontos estratégicos e daqui partiam navios de suprimentos, reforço de contingentes ou passageiros retardatários. Muitas dessas embarcações ainda estão no fundo do Oceano Atlântico. Para evitar que o afundamento prosseguisse era imprescindível que os Estados Unidos patrulhassem intensamente, de embarcações e aviões, as rotas marítimas. E as aeronaves norte-americanas tinham como base o aeroporto da cidade de Natal, cuja movimentação se tornou intensa. Era um surpreendente sobe-e-desce de aviões, noite e dia, e inusitado transporte de material bélico. A própria capital do Rio Grande do Norte era vigiada no céu, para evitar que acontecesse uma surpresa desagradável.
Num canto da base aérea soldados desenvolviam exercícios. Eles tinham que se manter em forma continuamente. Enquanto um agrupamento se submetia à marcha na ordem unida, outro simulava emergência, que consistia em abandonar imediatamente o acantonamento e instalar-se na desconfortável carlinga de um dos aviões caça que formavam esquadrilhas. Aquela tropa começara a se movimentar ainda de madrugada e os homens estavam cansados e só pensavam num relax. Instintivamente todos olharam para determinada direção e eis que surge o Alfredo, chapéu panamá, terno de linho e camisa ostensivamente brancos. Gravata acintosamente vermelha. Viera de prostíbulos onde passara a noite. Sentia-se-lhe o bafo de jibóia a uma distância de cinco metros. Os passos ainda trôpegos. Como todos os dias, naquela hora, naquele lugar. Os soldados já sabiam o que ele iria dizer.
O sargento, que decidira manter-se calmo, apesar de tudo, antecipou-se aos fatos e instruiu o piloto que ele considerava dos melhores: Vamos ensinar a esse folgado. Se ele pedir uma voltinha, coloque-o na carlinga e faça com seu Pássaro de fogo tudo o que você sonhou... Não deu outra: Alfredo mal conseguia parar de pé. Amparou-se no ombro do sargento e fez a clássica pergunta. A resposta não demorou. O piloto e outros dois soldados carregaram Alfredo nas costas e o amarraram na cabine do avião. Ele nem precisou pedir uma voltinha. Monomotor aquecido, passageiro com o chapéu panamá impedindo-lhe a visão e lá vão eles taxiando na pista de cimento, entre bombardeiros, caças e aeronaves de transporte pesado. Toda a tropa se manteve na expectativa do que poderia acontecer com Alfredo. Teria ele aproveitado bem o passeio? Quinze minutos após retorna o Pássaro de fogo. O sargento, esfregando as mãos, se aproxima enquanto o piloto se dirige à poltrona do convidado especial, que se mantém de olhos fechados e gravata limpa como se fosse babadouro: - Como é?
Gostou do passeio? Alfredo estatelou os olhos e balbuciando a frase respondeu com outra pergunta: Como é, pergunto eu! Esta coisa vai voar ou não?





