Carlos da Silva
Alfredo deixara de ser aquele homem alegre, otimista e que sempre apresentava solução ideal para os problemas que lhe apresentavam. Mudou radicalmente seu comportamento perante a comunidade. Em alguns casos era radical. Evitava até mesmo responder a perguntas de amigos e colegas. Ao invés de ir direto do trabalho para casa, passou a tomar aperitivo em barzinhos da moda, não se importando em chegar tarde da noite. Evitava encarar Cremilda porque temia tornar-se violento. E argumentar com violência trazia sempre resultados desastrosos. Procurava fazer prevalecer o diálogo a todo custo, até mesmo mantendo a cabeça baixa. Mas não conseguia digerir a informação transmitida claramente pela esposa: ela estava grávida! Foi como se Alfredo tivesse recebido uma punhalada no peito. Como é possível a gravidez quando o parceiro se submetera a uma vasectomia? O médico dissera que com essa cirurgia era impossível restabelecer as condições ideais que levassem à reprodução do ser humano. Mas, então, como explicar a gravidez da leal, fiel e idolatrada Cremilda? Não havia explicação e isso era o que mais preocupava. Se não há o que explicar, só poderia crer no óbvio: Ela o traíra. Aquela a quem ele devotara respeito e admiração mentira. Ou, pior, passara a não merecer homenagem e consideração daquele que jamais deixara de reconhecer-lhe os méritos.
Alfredo ficara duas semanas sem se dirigir à mulher. Não aguentava mais e decidiu ir direto ao assunto. Limpou longamente a garganta e indagou sobre o desenvolvimento da gravidez, o que o médico dissera e o que o pai da criança resolvera. Se daria todo apoio à criança etc. E completou taxativo: Espero que o aborto não tenha passado na cabeça de ninguém. Prefiro amoldar-me à condição de corno e criar esse filho de vocês. Cremilda não conseguiu disfarçar as lágrimas que lhe corriam no rosto e, como que agradecendo, arriscou: Jamais esperaria outra atitude de você.
Jarbas demorou a entrar em cena. Como se nada soubesse, tentava reduzir a tensão no apartamento onde muitas horas de alegria e prazer passara o casal. Agora só tristeza. Depois de dar voltas, Jarbas, voz grave, ponderou: O clima que reina aqui não parece produzir muita paz e tranquilidade. Ao invés de buscar uma solução vocês vivenciam com amargura o problema. Por isso sugiro melhor procedimento: Por que não perguntar ao médico sobre a possibilidade de desobstrução dos vasos fechados na cirurgia? Doutor Candinho cumprimentou o casal pela iniciativa de buscar esclarecimento e declarou. É isso mesmo, vasectomia não significa ponto final. Ela pode ser desfeita e recuperar a condição natural de reprodução. Aliás, outra circunstância é o restabelecimento de abertura dos vasos, o que possibilita a gravidez. Pode ter acontecido isso, mas somente outra cirurgia dará a palavra final.
Alfredo estampou um sorriso no rosto e abraçou e beijou a esposa que, outra vez, não conteve as lágrimas. O casal não conseguiu dissimular a alegria. O médico insinuou marcar a cirurgia, mas Cremilda ponderou: De minha parte não há necessidade de nada mais. Prefiro longe de mim essa vasectomia. Venha o que vier, resulte o que resultar... Depois de suspirar aliviado, Alfredo informou que a partir daquele momento descartava qualquer cirurgia do gênero.
E a paz voltou a reinar. Longe a desconfiança, a incerteza, a dúvida. A criança nasceu sadia, bonita e normal. Normal? A cara de Alfredo! Não é tão parecido assim, arriscou Ricardão afagando a cabeça do bebê. E esvaziando um copo de cerveja advertiu a Cremilda: Fomos salvos pelo gongo. A prudência é nossa melhor aliada. Se não tivermos cuidado alguém poderá requerer um exame de DNA. E aí estaremos fritos.





