Carlos da Silva
Anita, que parecia deitada numa cama elástica, deu um salto, ficou de pé e mãos na cintura advertiu: Fale para sua mulher, aquela vagabunda, não ficar no meu caminho. Parto a cara dela se ela não entender meu recado. E não vai adiantar permanecer na área. Quanto a você, não esqueça do que fiz com o pênis que o Ariovaldo tinha... Alfredo ficou estarrecido e balbuciou algo, mas a voz não saía. Era assim toda vez que eles se defrontavam. O problema era um só. Nitinha (para os amigos) e Alzira, sua mulher, eram incompatíveis. Ambas queriam o mesmo homem. E tinha que ser Alfredo. Ele procurava ser comedido mesmo numa rota de colisão, mas evitava a todo custo que ela colidisse com sua acompanhante, fosse quem fosse. Da última vez foi uma inocente criatura, que recebeu vários pontos no rosto. O conflito deixou meio estremecido o relacionamento entre Alfredo e Nitinha, mas diante de tanta promessa dele, ela concordou em partir para a reconciliação.
Entre tragos de uísque, madrugada fria, Alfredo decidiu analisar a situação: se o clima estava cheirando a pólvora por causa da ciumenta Nitinha, como seria após a chegada de Sabrina? Nem pensar. Convidativa, robusta, escultural e de pavio curto. Aquele corpanzil era o oposto de Sabrina. Esta era elegante, magra, bonita, tudo no lugar certo. O conjunto compensava a existência de algo que parecia ponta de osso no centro da região pubiana. Espetava nos momentos mais inusitados. Tudo corria bem, Alfredo se dividindo entre Nitinha e Sabrina. Até que, um dia, uma soube da existência da outra. Graças a uma colega de Nitinha, que insistia na advertência: - Agora é essa pilantra? Minha promessa é válida pra ela também. Não esqueça do que fiz no Ariovaldo... Alfredo voltou a tremer e gaguejar.
Pelo sim, pelo não, toda vez que saía na companhia de Sabrina o casal era discretamente guardado por três seguranças contratados por Alfredo. Morenos, altos, fortes, lembravam guarda-roupas. Ninguém teria que usar arma de fogo. Era apenas para evitar qualquer corpo-a-corpo. No primeiro mês o esquema funcionou tranquilamente. No segundo houve um mal-entendido. Um jovem olhara com insistência para Sabrina e teve que ser advertido por Alfredo. No terceiro mês, tensão geral. O serviço de inteligência detectou a presença de Nitinha, que discretamente aguardava numa esquina onde o casal iria passar. Alfredo emitiu o sinal, uma limpada na garganta, que significava alerta geral.
Enquanto ambos se aproximavam numa calçada, em direção a determinado ponto, Nitinha atravessava a rua no mesmo sentido, tudo indicando que haveria atrito.
Não deu outra. Os três pararam quase a se tocar, se entreolharam e Nitinha enfiou a mão no interior de uma bolsa de couro e apanhou um revólver. Apontou para o casal e, ante olhares apavorados, acionou o gatilho. Pelo cano saiu uma vareta de madeira e na ponta um tecido branco contendo, no centro, um PUM!.
Todos acharam graça. Até quando Nitinha guardou a arma de brinquedo, pôs as mãos na cintura e disse: Mas...credo.





