Uma vida a dois, presumindo-se um casal convencional integrado por um homem e uma mulher, pode não dar certo se o bom relacionamento entre eles depende decisivamente da boa memória e presença de espírito de cada um, principalmente do macho. Se ele é do tipo bonachão e despreocupado com o que acontece ao redor, tanto melhor para naufragar o seu romance. Temístocles é assim. Se o desenvolvimento tecnológico da humanidade dependesse da participação dele, adeus e um abraço. Responde sempre com a expressão ‘Qual é?.’ Lamenta a pouca duração dos seus casos. Quando as coisas parecem correr bem, surge a zebra e ele tem que mexer no banco. Boa memória e presença de espírito não são com ele.
Alfredo é pior. Dizer que sua memória é de elefante constitui ofensa grave ao paquiderme. Alzira fica de antena ligada. Sempre descobre um deslize conjugal. Ele tropeça até numa penca de banana no supermercado ao perguntar à mulher se seria mesmo necessário comprar mais bananas, além daquelas do dia anterior. Só que estas ele levou para Cristina... Em compensação esta recebeu um pacote contendo peças de porco para feijoada. ‘‘Não sei de onde ele tirou essa idéia. Nunca pude comer feijoada...’’ Alfredo treme a um simples toque do telefone. Tem que atender para sair pela tangente se a voz do outro lado é de alguém à sua procura. Uma das alternativas é responder com monossílabos, mas jamais deixando transparecer que corre perigo.
A mulher pode perdoar tudo do companheiro, exceto a troca do seu nome e o esquecimento da data do seu aniversário. Armando não sabia disso e pagou a pena por trocar Izilda por Neusa. O mais sério foi mudar o dia em que ela nascera. Ele ficou mais constrangido ao entregar-lhe o presente na data errada. Mas justificou: ‘‘Nunca escolho dia para deixar feliz uma mulher’’. Dia seguinte, ao chegar em casa, ouviu choro de bebê, ficou atônito e balbuciou: ‘‘Pelo amor de Deus, que criança é essa?’’ Izilda colocou o nenê num carrinho e buscou água com açúcar. Ao tomá-la ouviu a explicação da esposa: ‘‘É o bebê de uma vizinha que teve que se ausentar repentinamente. Mas por que o susto? Por que ele significa tanto?’’ Ele
jamais contaria que ficara traumatizado por momentos
felizes que o levariam a se submeter a uma vasectomia.
Mas confessava: ‘‘Pelo sim, pelo não...’’

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