Carlos da Silva
Os que ousam aproveitar a ausência do parceiro (ou da parceira) para incursionar nos meandros do que se convencionou chamar de traição poderão pagar caro. Principalmente se forem marinheiros de primeira viagem. A experiência poderá acarretar sérias consequências e, o que é pior, reciprocidade, que significa muita dor de cabeça seguida de sério arrependimento. Mesmo quando o cônjuge tem experiência suficiente para revisão nos procedimentos de aproximação, assédio, consumação e eliminação dos indícios. Uma simples bobeada poderá detonar como granada nas mãos de ingênuos. Foi o que aconteceu com Alfredo. Ele quis aproveitar a ausência de Abigail, que antecipara em dois dias o retorno da visita à sua mãe. E provocou um desastre no relacionamento do casal. Ela exigia uma resposta aceitável a esta pergunta: Quem dormira com ele na cama do casal? Ela considerava isso fato consumado. A principal prova do deslize era uma correntinha de ouro fixada numa medalha.
Enquanto Alfredo coçava a cabeça, Abigail ia despejando: A vagabunda que dormiu no meu lugar não tem sensibilidade sequer para usar jóia de gente fina. Eu não poria esse badulaque no pescoço em nenhuma hipótese. O marido ofendido retrucou que se tratava de surpresa. Aquilo era presente dele para ela e não custara pouco. Mas ela não quis saber: Presente uma ova. Você está cansado de saber que minha religião não aceita culto à imagem, e nessa correntinha tem a figura de uma santa. Peça ajuda a ela agora. Você vai precisar. Ficaram dois meses praticamente sem se falar. Ela não quis dormir no mesmo lugar. E explicou: Sei lá quanta sujeira esse bicho deixou aqui. No mínimo um punhado de gonococos.
Para Alfredo ele fora vítima da ingenuidade ou da negligência. Ou das duas coisas juntas. Ele não levara a sério os preceitos que ajudara a alinhavar: Não deixar pistas, como peças de roupa e odores facilmente identificáveis. Marcas de batom, nem pensar. Se eventualmente escapar alguma, que não seja na cueca. Quando falar ao telefone evite mencionar nomes, lugares ou números como se fossem código, como Joana, Cambé, 74. Claro que quem ouvir esses detalhes arma imediatamente um esquema. O mais aconselhável é manter normalmente o diálogo. Sem falar demais ou de menos.
Para Alfredo não basta seguir aquelas sugestões: Jamais promova festinhas íntimas onde você reside. Além da necessidade de manter a aparência de seriedade, há o risco de alguém esquecer alguma coisa. O ideal mesmo é comemorar em motel. Mas fique atento ao chegar e sair, pois algum conhecido pode estar no meio do caminho. Ao observar o apartamento, verifique a possibilidade de existência de uma câmera de filmar, que geralmente fica escondida entre flores, cortinas, abajures etc. Seja exigente ou poderá ser a atração num dos próximos filmes eróticos, de graça.
Desconfie quando a esmola for demais. Se o convidarem para festinhas familiares, fique alerta mesmo que os convivas sejam gente fina... De vez em quando aparece a Polícia, que deseja saber se você virou babá ou se a fumaça e o cheiro provêm do chuveiro. E se um robusto cavalheiro perguntar se você conhece Almerinda, negue. Simule uma desmunhecada, antes que isso seja impossível...





