Carlos da Silva
É chato conviver com chato
Arquivo FolhaPor que os chatos não se tocam que são chatos? Em qualquer lugar, hora, chova ou faça sol, lá está ele, crente que sua presença e pontos de vista agradam aos interlocutores. Ele nasce chato (não confundir com o inseto pubiano homônimo que sempre justifica sua presença com momentos de prazer), se desenvolve chato e só com a morte proporciona alegria aos circunstantes. Era assim Teobaldo. Adorava interromper a conversa dos amigos (ou conhecidos) e no ponto culminante ele interrompia com a frase: Espero não estar interrompendo, mas... Sempre havia alguém para tentar explicar que ele realmente interrompia. Até que decidiram ficar em completo silêncio toda vez que ele manifestasse o desejo de prejudicar o próximo. Os amigos discorriam sobre doenças hereditárias mas silenciaram para ouví-lo: Não sei exatamente onde, mas em algum lugar houve algo, não sei o quê, nem com quem...
Dia destes o grupo de amigos foi a um restaurante, onde cada um escolheria o prato preferido, comeria quanto quisesse e pagaria por isso. Jarbas tirou o corpo fora e explicou que só iria a convite de alguém. Como ninguém se dispôs a isso ele completou: Já que houve consenso, acompanho o grupo. Enquanto Alfredo esperava sua pizza à calabresa e bebericava cerveja, Jarbas procurava dissimular brincando com talheres. Percebia-se que ele engolia em seco ao ver a pizza pousar sobre a mesa. De vez em quando ele olhava fixamente os restos da borda (laterais) geralmente estorricadas. Não resistiu e, como um chato, avançou e explicou que não pedira para si porque os pedacinhos ressecados são sempre mais gostosos...
O pior dos chatos é aquele que não se toca com a altura da voz e ao perceber que há ouvintes nas proximidades, aumenta o volume das cordas vocais e dá a nítida impressão de que o amigo que está com ele, ouvindo-o, é responsável pelo ilícito sobre o qual ele discorre. Nunca esquecia de pôr lenha no braseiro, como: Aí eu disse, por que você não dá um tapa no meu rosto, seu pilantra? ou Espero só 24 horas para você me dar aquela grana. Fora desse prazo vou cobrar na porrada... O respeitável público era capaz de jurar que a ameaça era dirigida ao amigo com quem o valentão contracenava...
É muito chato conviver com chato. Principalmente porque ele ignora a diferença entre lugares e horário. Madrugada dessas Alfredo procurava contornar um problema estomacal causado pela ingestão de feijoada. A preocupação aumentou quando o telefone tocou. A gente só telefona numa hora desta para transmitir notícia ruim, ponderou.
Era Atanazio, halterocopista folclórico, que não quer saber do bem-estar do próximo: Pô, meu. Ainda de pé? Só quero saber se você tem idéia de um programa que a gente possa executar agora... Alfredo respondeu: Tenho sim. Tape os ouvidos ou desligue o telefone. O arrependimento
poderá causar-lhe mágoa...
- CARLOS DA SILVA





