Carlos da Silva
Arquivo FolhaQuem os visse e ouvisse não acreditaria que os dois ainda conseguiam viver juntos cerca de dez anos. Lenita parecia na iminência de explodir de ódio ao presumir ou descobrir um deslize de Abelardo. Todas as noites, quando se encontravam em casa, ela exigia que ele prestasse contas de todas as circunstâncias que pudessem comprometê-lo em algum caso. E vociferava: Enquanto a besta aqui enfrenta oito horas atrás do balcão de um banco, o conquistador se encontra com pilantras, vagabundas ávidas para tomar-lhe dinheiro. Mas um dia isso terá fim. Se terá. Se não acabar por bem, será na marra. Não sei até quando a tonta vai aguentar... Mas a carícia de Abelardo falava mais alto. Momentos depois Lenita se desmanchava nos braços de Abelardo, que entre beijos confessava: Puxa, bem. Hoje você veio mais braba. Cheguei a pensar que fosse tomar uma represália mais séria... Precisamos descobrir um jeito de comprovar meu comportamento exemplar. Não nego que de vez em quando topo com uma garota. Mas não passa de uma olhada com luz baixa...
O ciúme de Lenita era justificado. Abelardo era um crápula. Não podia ver mulher com alguns predicados físicos. Considerava-se o mais belo homem do mundo a quem as mulheres deviam tributar amor. Nos últimos tempos ele procurava ser comedido a fim de que ninguém de Londrina soubesse do seu noivado com bela jovem de Curitiba. Mas parecia que Lenita soubera de tudo. Ou pressentia. A atividade comercial de Abelardo exigia constantes viagens, mas nem tanto... Para diminuir a possibilidade de Lenita descobrir algo complicador, ele aumentava a precaução. Um dia bobeou ao esquecer que ela estava de antena ligada: Vender o telefone? Negativo. Preciso dele aqui. Se o problema é grana, fale comigo. Sem essa de me impedir de falar com o mundo. Afinal, você quer evitar o quê?
Em quase todas as noites Lenita ouvia pelo telefone uma voz feminina que parecia querer transmitir-lhe alguma informação preciosa. Procurou ser receptiva e tranquilizar a mulher da outra ponta: Fique sossegada filha. Você não fica no prejuízo... Sei o que quer dizer. Ele a passou pra trás e agora quer delatá-lo, não é? Diga apenas Sim ou Não. Juro que nada mais perguntarei. Silêncio. Estimulada por Lenita a moça despejou: Ele não presta. Fala mal de você, tem um monte de namoradas mas vai casar é com uma garota de Curitiba...
Parecia coisa combinada. Horas depois chegou Abelardo e percebeu que o ar estava carregado. Limpou a garganta várias vezes, ensaiou uma frase, mas só balbuciou. E Lenita voltou à carga. Esbravejou, agora sabendo de tudo. Ele aproveitou a oportunidade e confessou até que iria se casar. Ela não disse palavra. Nem mesmo enquanto descarregava o revólver no peito e na cabeça de Abelardo. Em seguida puxou o corpo até a garagem e o colocou no bagageiro do carro. Pretendia jogá-lo na represa Capivara. Mas não conseguiu, por causa da curiosidade de um sargento da Polícia Rodoviária, que sinalizou para que ela parasse e quis saber que sangue era aquele que escorria do Opala azul.





