Carlos da Silva
Alfredo relutava descrever o quão desalentador fora sua primeira vez em variados aspectos. Adolescente, sentia, a centenas de metros, que era servida na escola a apetitosa sopa aos alunos pobres. Muitos não faltavam às aulas exatamente porque o alimento estava disponível na hora do almoço. Mas, então, por que justamente ele não recebia o benefício e fora retirado da fila ao tentar driblar a vigilância da professora? Foi a primeira e última vez. Entendeu o alcance social da iniciativa e nunca mais tentou se apoderar de qualquer alimento destinado a outros. E jamais esqueceu o cheirinho exalado pelo prato de sopa.
Houve situações constrangedoras para Alfredo. Como a que ele viveu ao se submeter a exames médicos para se incorporar ao serviço militar. Mais de quinhentos homens perfilados diante da banca examinadora. Eram oficiais médicos responsáveis pela escolha dos homens que a partir de então responderiam pela segurança da Pátria. E esses mais de quinhentos estavam absolutamente pelados. Qualquer indício de imperfeição física levava a testes mais rigorosos. No lugar do homem, apenas um número. Alfredo era, então, o 215. De repente o megafone chamou exatamente quem? O 215 teve que explicar a origem de anomalias congênitas. Nem tanto quanto as de Manguasca, Pé de mesa, Trombone etc.
Os quatro andavam juntos. Sempre dispostos a ajudar o próximo, mas não levavam desaforo para o quartel. Certa noite Pé de Mesa convidou os demais para um esquema concebido por Nitinha, morena bonita e educada, ao menos na opinião dele. O quarteto deveria se encontrar num gramado acolhedor entre montes de tora no depósito de uma serraria. Nitinha cumpriu a promessa e levou outras três companheiras. Deixaram rolar, mas Alfredo não encarou sua participação e dispensou Cacilda, gorduchinha que lhe coubera. Intimidade com higiene não era o ponto forte da jovem. Alfredo sempre soube que quem não é limpo por fora também não o é por dentro. Mas os três amigos mandaram ver e já no dia seguinte começaram a sentir sinais de doenças venéreas. Mais uma vez Alfredo fora salvo pelo gongo e sua primeira vez ficou para depois.
Chegara o dia ansiosamente esperado por Alfredo. Almerinda não era da sua faixa etária, mas, simpática e agradável, demonstrava sinais de beleza. Ela o conhecera havia muito, mas nem pensara que um dia ambos poderiam chegar a uma intimidade mais profunda. Arquitetaram um plano de ação. Ele deveria abrir sozinho a porta e ir ao quarto dela, que o esperaria. Duas sobrinhas que passavam as férias na casa dela dormiam sempre em outro quarto. Mas naquela noite calorenta uma delas quis aproveitar o frescor produzido por um ventilador e preferiu dormir exatamente junto à porta de Almerinda. Alfredo não esperava que para ir ao banheiro teria que pisar exatamente sobre a garganta de uma daquelas adolescentes. Confundiram-no com um assaltante e o clima foi desfeito. A tão esperada primeira vez foi de novo adiada. Sine dia.





