Carlos da Silva
Arquivo FolhaNa frente do trio seguia Beija-Flor. Uma imagem fantasmagóricaMadrugada de sexta-feira, 13. A turma de Alfredo terminava a última partida de sinuca e os jogadores, bocejando, se preparavam para tomar o rumo de casa. Ninguém imaginava que ele havia concebido uma dura prova para eles. Pigarreou, como indicativo de que iria falar, e todos ouviram: Como sabem, os meios de informação vêm destacando, nos últimos dias, que alguém tem invadido um dos cemitérios locais e violado cadáveres recém-sepultados para tirar-lhes
próteses com aplicações de ouro. A Polícia está na estaca zero das investigações e tudo são conjecturas.
Os amigos continuavam em silêncio, como a indagar o que cada um deles tinha a ver com isso. O problema, insinuaram, era da Polícia e dos familiares dos falecidos. Eles não sabiam de um dado novo que Alfredo acabara de receber e que era mantido em sigilo: a quem tivesse informações precisas que levassem ao autor do vandalismo, determinado empresário daria a metade do ouro que alguém retirara da boca de um parente sepultado dias atrás. Alguém afirmara que o extinto só andava de cabeça baixa por causa da quantidade de ouro guardado nos dentes. Quase meio quilo. Fosse quanto fosse, Alfredo pretendia formar um grupo de amigos, dentre os que ali estavam, para tentar descobrir alguma coisa no cemitério naquela noite mesmo. A possibilidade de conseguir parte do vil metal entusiasmara a todos. Decidiram que iriam primeiro em grupos de três.
O primeiro era formado por Curiango, negrão forte e alto, Beija-Flor, sanfoneiro magro e baixo, e Zoiano, que sofrera acidente quando garoto e andava se arrastando entre duas muletas, das quais partia aquele ploc-ploc do contato com o asfalto da rua principal da necrópole. O barulho perturbava tanto que Curiango teve a feliz idéia de colocar Zoiano em seus ombros, segurando as muletas como se fossem duas asas. Na frente de ambos seguia cauteloso Beija-Flor, que empunhava uma lanterna. Formavam uma imagem fantasmagórica.
Perto dali, Cigana e Zequinha, mulher velha e deficiente mental, e seu neto excepcional, começavam a profanação de outro jazigo. Perceberam a aproximação daquela coisa do outro mundo e ficaram como que petrificados entre algumas velas que ardiam próximo. Ao ver a cena tétrica o trio parou e iniciou a viagem de volta, correndo o mais rápido possível e saltando sobre o portão de ferro do cemitério. Relataram o fato à Polícia, que já desconfiava da velha mulher e do neto, que residiam ao lado do cemitério. Nunca mais Zoiano precisou usar as muletas.





