Carlos da Silva
Nada mais constrangedor do que tomar abruptamente um elevador no meio do caminho, quase lotado. Os companheiros de viagem, que já se entreolhavam, dissimulam contrariedade olhando cartazes na parede ou prestando atenção nas conversas sobre a última pescaria, narradas pelo cidadão que acredita ter o direito de empurrar seu rosto com a mão ao descrever as medidas do último peixe que capturou. Num canto alguém exclamou: Vichi... Outro cidadão completou: Ainda bem que o senhor não trouxe nem mesmo fotografia!
Pior, ainda, é aguentar o ascensorista anunciar o andar de que o elevador
se aproxima: Quinto ... como se o passageiro fosse analfabeto ou quase cego a ponto de não saber que números são aqueles que desfilavam no visor
vermelho. Igualmente desconfortável é o clima de expectativa num consultório médico. O equipamento moderno explica por que o preço da consulta é tão elevado. Pouco depois o paciente muda de opinião e o médico, olhar severo, adverte que o problema será contido numa cirurgia.
Na história dos elevadores foram raríssimos os que despencaram. Mesmo assim a falha foi humana. Geralmente faltou manutenção. Felizmente isso acontece mais com equipamento obsoleto, mas os elevadores fabricados com a moderna tecnologia só faltam falar. Se prestar atenção nas instruções, qualquer pessoa pode operá-los. Foi isso que me veio à cabeça quando nosso elevador - três mulheres e dois homens - parou entre dois andares. A porta não dava nenhum sinal de que um dia abriria. Via-se somente o paredão. Mais a título de gozação alguém comentou que não sairiam dali tão logo. Bastou para que a mulher entrasse em pânico. Gritou a plenos pulmões e pediu socorro como se estivesse na iminência de ser violentada.
Próximo do painel de controle havia uma discreta linha de letras pretas: Em caso de emergência aperte este botão. Foi o que fizemos. Havia outras instruções, como Use este interfone para falar com a administração. Pedi socorro. Responderam que o problema já tinha sido detectado e que em cinco minutos o problema seria superado. E a passageira continuava gritando. Explicou que seu medo era de altura. De repente um mecânico abriu o tampão superior do nosso elevador, e a mulher voltou a berrar, até que explicássemos que o barulho viera de quem nos salvaria.
Alfredo foi buscar a namorada num hospital, onde trabalhava na burocracia. Mas houve um desencontro e ambos tomaram elevador diferente. Uma maca coberta de branco foi empurrada para junto dele. A porta se fechou automaticamente e o elevador prosseguiu a viagem. Alfredo comentou: Que moleza hein? Quer que eu levante um pouco o lençol para você respirar melhor? Só então ele constatou que era um cadáver.





