Alguém disse que não existe dia de sorte ou de azar. E que sorte é a pessoa certa, no lugar certo, no momento ideal. Azar é a mesma coisa no sentido inverso. Como aquela visita inoportuna que a gente pagaria tudo para não acontecer. Não pude evitar. Era um casal até agradável e simpático, mas para mim pesava mais a jovem que, depois de me fazer esperar mais de um ano,
acabara de garantir que em trinta minutos comeria aquela pizza comigo. Encomendei as ditas cujas e, que surpresa, o casal pensara a mesma coisa. Sobrou pizza até para o pessoal da portaria.
Existem pessoas que parecem estampar ódio, tristeza e pessimismo no rosto. Pior é que existem também os que antevêem os fatos. Cremilda convidou-me para tomar chope. Não imagino e nem desejo saber o que ela faz com tanto líquido. Desenrolou um rosário de situações constrangedoras de que fora protagonista e só parou depois que ergui o braço direito, pedindo licença para sugestão: Alertei-a sobre o fato dela estar sentada exatamente no caminho do garçom. ‘‘Faço picadinho se ele não for educado. Aliás, sou apenas uma freguesa e consumidora.’’ Cinco minutos depois apareceu o garçom se equilibrando sob a bandeja lotada de copos de chope. Ela vociferou impropérios, do tipo que envolve genitora. O coitado do garçom quase foi às lágrimas. Com pena dele procurei minimizar o episódio e sugeri como alternativas que Cremilda tomasse banho para eliminar aquela craca que a bebida deixa na pele. Depois deram-lhe um gorrinho e uniforme de atendente. Não ficou de todo mal.
No tempo em que somente a Real Transporte Aéreo conduzia passageiros entre Londrina e São Paulo ela, como cortesia, operava também um serviço domiciliar. Utilizando um microônibus a companhia levava e buscava em casa. O vôo começava às 7 horas, em Congonhas. Só que o autor destas mal traçadas passara a noite em lugares indevidos e, ao invés de estar de pé às 6h30, roncava deitado como um porco. Só acordou quando passageiros manifestaram o desejo de arrebentar a porta. Naquele dia o velho DC3 teve de esperar.
Um amigo preferia morrer a passar debaixo da escada bem à nossa vista. Enquanto eu brincava com essa situação ele contornou a escada e pisou num sabão, estatelando no chão. Aqui caberia a expressão ‘‘Não presta ser supersticioso.’’ Não esquecer o ‘s’ do meio do vocábulo.
Como está lá em cima, sorte ou azar é a pessoa no lugar certo, momento certo e hora certa. Claro que sempre ajuda a mãozinha de Deus. Acompanhei com carinho o crescimento de duas lindas melancias, que correspondiam ao ciclo produtivo de um imóvel. Ajudei-as como pude. Num dia seguinte não havia nem sinal delas. Que decepção. Na esquina um garoto oferecia seus produtos numa banca improvisada: ‘‘O cavaleiro está com sorte. Guardei as duas para o senhor. Contaram que o senhor aprecia melancia...’’

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