Alfredo nutre profunda admiração pelos que pilotam uma cozinha e ali, como mágicos, produzem pratos fantásticos, doces ou salgados. Ele dissimula com respiração profunda e demorada como se dissesse: ‘‘Não há como. Desisto.’’ Ávido por aprender, foi incentivado por uma prima. Jurou que enquanto ela permanecesse assessorando-o ele continuaria tentando. Mesmo que amigos e parentes, por pura sacanagem, ostentassem saborosas iguarias, como pato no bafo, camarão na grelha, frango ao primo canto, ostras que se abrem graças ao calor, lagosta etc., para não mencionar o barreado, típico do litoral, regado a generosos goles de cachaça de banana da região de Morretes.
Uma das situações mais surpreendentes que Alfredo vivenciou foi fritar ovos num paralelepípedo. Jarbas manteve o segredo: a superfície plana da pedra (se inclinada a clara escorre) tem que receber ajuda de outra fonte de caloria pouco antes da demonstração. A platéia ficava embevecida com a transformação do ovo em algo fumegante e saboroso, sem precisar de fogo... Aproveitando o entusiasmo do público, Rosely incluída, Alfredo anunciou a ‘‘próxima atração’’: um gostoso bolo desses comprados quase prontos. É só botar no forno e pronto. Aconselhável providenciar as opções: refrigerante, chá, café ou leite. ‘‘Seria bom dar uma olhada no bolo, que deve ter subido uns dois centímetros...’’ ponderou Augusto, que argumentou: ‘‘Minha mãe fica de butuca e ao menor crescimento retira o bruto da forma... Mas aqui umas dez pessoas abriram a assadeira para ver o que havia dentro.’’
‘‘Deve ter subido mais uns cinco centímetros...’’ completou Reinaldo e tomou a liberdade de mostrar a todos como havia crescido a massa do bolo. Surpresa geral: Olharam demais e comerão de menos, pois desse bolo ficou apenas uma crosta endurecida sobre algo cremoso, quase um creme. Ele baixou.
Ainda assim Alfredo não esmoreceu. Anunciou que, para não decepcionar os convivas, serviria nos próximos minutos um delicioso prato que atende pelo nome de inhoque. De fato, uma hora mais tarde começou a retirar da água fervente o prato que fascina todo italiano. Só houve um porém: ficou duro demais e quase ninguém apreciou.
Tentando salvar a situação Alfredo anunciou que em poucos minutos serviria risoto, ‘‘aquilo que japonês chama de akikohan, sempre acompanhado de nhakisoba’’ (um doce para quem souber a grafia correta). A especiaria oriental foi apresentada no meio da tarde, quando poucos, só os mais famintos, haviam decidido experimentar. O risoto estava salgado demais e o ‘‘nhakisoba’’ era macarrão puro, sem acompanhamento. Os que ficaram deixaram a impressão de que estavam satisfeitos.
Alfredo resolveu servir um lanche, mas ao anunciar a pretensão foi delicadamente contido. O pão que mandaria comprar seria certamente do dia anterior. Um dos presentes ponderou: ‘‘Você foi por demais hospitaleiro. Chega de tanta comida gostosa.’’

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