Os músicos deram graças aos céus por aquela pausa. Ninguém podia aguentar a desorganização geral no baile do sindicato dos coureiros. Não se sabia por que coureiros. Um cidadão que aparentemente se mostrava interessado na explicação ponderou que talvez os promotores quisessem escrever ‘‘toureiros’’, que levava mais jeito no nosso idioma. Só no fim da história alguém contou que era homenagem aos brilhantes patrícios que contribuíram para o desaparecimento de milhões de animais no País. Mas o que tinha a ver com o baile? Alcebíades informou que era por causa de uma série de homenagens que seriam prestadas ao longo do ano novo aos popularmente conhecidos como ‘‘bicheiros’’. Eis a vinculação.
Jarbas pretendeu utilizar os últimos goles de cachaça com que mandara encher um litro de uísque importado. Sentiu que não aguentava mais e recostou o corpo num canto do salão. Uma voz que parecia masculina gritou ‘‘Aí, machão’’. Quis saber de onde partira o estímulo, mas só a energia consumida ao mover o tronco o fez espatifar-se com o rosto no chão. Cena de dar pena. O suor que escorria da testa e do rosto insistia em deixar colados no caminho confetes coloridos. Enquanto permitia, a memória traçava um retrospecto do ano que chegava ao fim.
Escolhera errado a profissão, casara cedo demais. Reproduzia como se participasse de pesquisa da Nasa. Tudo ia mais ou menos bem quando sobreveio o desemprego. Mas, se de um jeito ou de outro o barco era empurrado, por que não agora? Daí a bebedeira, como se ela ajudasse realmente.
Quando a orquestra retornou e pares e cordões se formavam, destacava-se a figura de Léslie. De protuberância abdominal e rosto arredondado, onde se destacavam rugas que denunciavam a idade. Nem era preciso. Grandes dentes numa boca disforme impossibilitavam qualquer obra-prima de profissional responsável. Mas ela, vítima principal, não se importava. Dizia que já se habituara com suas virtudes. Era sempre a primeira a socorrer os amigos. E os tinha bastante.
Só faltava Euclides, principal elemento de ligação do pessoal do morro com o front. Não era preciso dizer o tipo da mercadoria que comercializam. Era do tipo que, para despertar mais atenção, só faltam as esporas. Até Euclides era lúcido em alguns momentos, como no Natal e passagem do ano. Dizia que falava com Deus nessas horas para ‘‘assegurar o retorno’’. Já se livrara de muitas situações de risco e continuava intacto.
Duas horas da manhã. O salão lotado vai se esvaziando lentamente. Era ‘invasão de território’. Dois grupos se encontraram e o tiroteio começou. Durou cerca de meia-hora. Euclides procurava limpar a roupa dando-lhe palmadas. Ergueu a pistola, assoprou o cano e guardou-a no coldre. Rumou na direção do banheiro, considerado ‘zona de exclusão’. Ninguém vira ou ouvira nada.
Silêncio geral e dois tiros se ouvem. Não conseguiu tempo para reorganizar seu sistema defensivo. Estrebuchou no chão, como se fora um saco de batatas. Não houve quem lhe cobrisse o corpo com folhas de jornal. Muitas mães, chorando com antecipação, levantavam os braços dando graças a Deus. Ainda não foi desta vez.

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