Carlos da Silva
Alcides não era mais aquele, compreensivo, alegre, brincalhão e feliz. Parecia outro. No lugar do homem pacato que sempre pregou o entendimento entre as pessoas surgiu um amargurado. Dizia que de nada adianta falar em paz entre os homens e viver em conflito com o próximo. E quem o transformou tão radicalmente foi a suspeita cruel sobre a aparente intromissão de Ricardão, que todos conheciam naquela pequena localidade. Alguns já haviam tido algum relacionamento com ele. Uns o conheciam de vista, de longe. Outros viviam próximos dele, sem saber. Volta e meia ele era apanhado em flagrante, mas todos preferiam abafar o episódio, em favor da defesa da moral e dos bons costumes. Afinal, as aparências tinham que ser mantidas, como em qualquer lugar.
Alcides tinha razão de sobra para transformar a dúvida em certeza. Almerinda deixara de sorrir e de cumprir deveres de esposa. Alegava dor de cabeça ou cansaço. Só de vez em quando correspondia à expectativa de Alcides, que permanecia remoendo seu problema. Foi Alcebíades, graças a sua experiência, quem sugeriu a solução: Vocês estão complicando. Vai ver, não é disso. Ela pensa que o maridão não é mais aquele em quem se podia confiar, e você vice-versa. Leve a comadre a um lugar adequado, onde ninguém possa atrapalhar e converse com ela. Exponha sua dúvida e a deixe falar. Vão descobrir que o bicho não é tão feio como parece.
Foi difícil e constrangedor para ambos. Depois de limpar a garganta longo tempo, buscando forças para falar, entrou no assunto. Disse tudo que pensava a respeito da honrada Almerinda, cujo comportamento entrara em rota de colisão moral. Ela ouviu com atenção e de vez em quando estimulava Alcides com seguidos diga, diga. Ao final ele sugeriu terminar o romance ou colocar uma pedra em cima de tudo. Almerinda começou sua defesa lamentando que o marido aceitasse uma acusação sem ao menos indagar sobre a origem. Ao menos devia colocar tudo em pratos limpos e não aumentar a dúvida... Também ela concordou em voltar ao que era. Mas numa boa, sem desconfiança, um acreditando no outro, para que vivamos em paz...
Alcides ofereceu a Almerinda seu carro, para que ela visitasse uma amiga costureira. Mas recomendou que ela voltasse em tempo de ele cuidar de uns negócios nos quais negligenciara. Ela cumpriu a palavra: vapt vupt. Ao devolver o veículo recomendou uma verificação num pneu traseiro, que parecia necessitar de um pouco de ar. Ele tocou direto para o borracheiro, que fez o teste da água e detectou um pequeno furo. Enquanto o remendo era providenciado Alcides se uniu a amigos e o assunto era futebol. Como havia mais pneu para conserto o borracheiro pediu que Alcides pusesse o carro em outro lugar e indicou uma brecha na sombra. Agradeceu e atendeu a sugestão. Nem precisava fechar o vidro das janelas. Ao juntar-se de novo aos amigos comentou que não era qualquer freguês do borracheiro que usufruia de sombra no estacionamento.
Uma explosão destruiu completamente o veículo e a pequena árvore. Pedaços de lata e de galhos caíram seguidamente. A Polícia foi avisada e três homens foram enviados ao local. Um deles comentou: O ódio era demais. Ainda bem que dentro não havia ninguém. Vamos elaborar o boletim de ocorrência. Por favor, os documentos do veículo... Tem seguro? Ninguém soube o que pensar ou dizer...





