Alfredo temia que sua tarefa fosse difícil, mas contava com a compreensão de Elvira. Errou. Foi dificílima e a colaboração impossível. Ela derramou-se em prantos e às vezes a palidez do seu rosto inspirava preocupação. Ele começava a curtir arrependimento. Dez anos vivendo em companhia de uma mulher que lhe dedicara amor, fidelidade e refeições saborosas. E, quando ninguém apostaria na coragem dele, chega o momento de pedir separação. Ela insistia em perguntar em que errara: ‘‘Sempre proporcionei o melhor para você, de quem esperava apenas momentos de amor. Até isso você me tem negado. Pensa que não percebi a falta de reciprocidade nos últimos tempos? Eu sentia que alguma vagabunda estava na área. Agora fica comprovada minha suspeita. Mas isso não fica assim tão fácil. Você vai ver o que é arrependimento. Vou negar até um prato de comida. Se quiser um lenço lavado vai ter que lavá-lo. A besta aqui fez até demais.’’
Enquanto juntava suas coisas, Elvira o emocionava ao enumerar os favores que fizera em benefício dele, mas ele desviava do assunto: ‘‘Se quiser pode ficar com o apartamento. Vou desativá-lo se não continuar aqui...’’ Sentia a consciência pesada e teve ímpeto de abraçá-la e pedir perdão e continuar como dantes. Vivendo juntos e cada qual fazendo o melhor para o parceiro. E quase chorou ao vê-la fechando a bagagem simples e pedindo um táxi. Ela sentia que aquela era a última vez em que se viam, pois negou-lhe o novo endereço: ‘‘Nunca saberá meu endereço. Para quê?’’ Na hora do adeus ele chegou a insinuar que continuassem, mas ela foi taxativa: ‘‘Não deseja separação? Pois a terá. Prossiga desrespeitando os seres humanos e um dia terá o troco. Ele é sempre dolorido. E adeus.’’
A tralha de Alfredo lotou sua caminhonete. Acertou com o proprietário que mais tarde passaria para levar os móveis. Nesse ínterim poderia até vendê-los, se algum interessado estivesse disposto a pagar um bom preço. Estava quase chegando ao prédio do apartamento de Sônia. A primeira coisa a fazer seria dormir ao menos uma hora, pois a noite não lhe fora nada benéfica. Por isso lhe fazia bem aquele ventinho fresco no rosto.
Sônia demorou a atender a porta uns dez minutos que pareciam uma eternidade. E manifestou surpresa, pois não esperava Alfredo tão cedo. Desvencilhou-se quando ele tentou beijá-la. Ela explicou: ‘‘Sabe o que é, meu bem? A gente precisa acertar detalhes. Por exemplo, estou devendo três meses de aluguel e cinco do condomínio. Temos que acertar isso e outras coisas...’’ Alguém que se encontrava num quarto rosnou: ‘‘Algum problema, benzinho?’ A resposta explicou que se tratava de ‘‘um velho amigo’’. ‘‘Só que agora era prematuro. Nosso relacionamento está apenas começando e por enquanto estou com Maurício, esse cara que estava dormindo. Não leve a mal, mas vamos dar tempo ao tempo...’’
Arnaldo, amigo de Alfredo, cedeu-lhe uma garagem para a emergência. Mas no plano sentimental continuou a viver com zero à esquerda. Tempos depois outro amigo comum contou-lhe que Elvira quase sucumbira na separação, mas prosseguira só, casara e tivera um casal de filhos. Conseguira, afinal, viver feliz. De Alfredo não desejava ouvir sequer o nome.

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