Carlos da Silva
Dia de eleição tinha significado especial para o adolescente Alfredo. Seu espírito patriótico não chegava a tanto e ele não entendia a relação entre enfiar umas cédulas na urna, ajudar na distribuição de churrasco e santinhos, mordiscar saborosa carne macia e tentar conseguir algumas namoradas. O esquema concebido por ele era simples e funcional: se insinuava entre assessores do coronel político da região para ajudá-los a distribuir carne assada a famílias inteiras de descamisados, com segunda intenção. Por coincidência a seção eleitoral funcionava a cem metros da propriedade do coronel.
Claro que mocinhas bonitas na fila de votação eram brindadas com comprometedores refrigerantes e sanduíches. Principalmente se elas acenassem com a promessa de pequenos favores. Sempre beneficiando aquele que investia na festa, mesmo que isso lhe custasse quantos bois fossem necessários. A conscientização na boca da urna era acintosamente praticada até mesmo no interior de uma cabine improvisada, próximo de onde permanecia um auxiliar de operação, incumbido de receber montes de cédulas e de colocar uma delas na mão do votante. Eventualmente, quando o eleitor mostrava cédula de outro candidato recebia a informação: Essa não serve... Discretamente se fazia a troca. Bons tempos aqueles.
Entre os imóveis do coronel um era depósito de material. Guardava-se de tudo: o que devesse guardar ali, o que seria levado para a fazenda e o que fora trazido de lá. Alfredo fora ali buscar um saco de pães. Antes de apanhar a encomenda ouviu gritinhos contidos, seguidos de gemidos constantes. Vinham do cômodo ao lado. Subiu depressa uma pilha de sacos de milho. Sobre o último deitou-se e presenciou um espetáculo inesquecível: o coronel completamente nu e debaixo dele, pelada, a Gracinha, jovem morena de cabelos negros sobre os ombros, que minutos antes fora vista na fila de eleitores. Uma das lideranças políticas da região, ele rosnava como se fora fera. Quanto mais a jovem gemia, mais ele rosnava.
De repente silenciaram e, prostrados, permaneceram algum tempo distantes de tudo. Enquanto ele fumava ela o acariciava em regiões erógenas. Como se lamentasse, o coronel levantou-se do monte de sacos vazios e determinou: Saio na frente e vou dar um pulo na fazenda. Você faz um pouco de hora aqui. Nem bem ele saiu, Alfredo pulou sobre a sacaria, na frente da Gracinha. Nem mesmo a cumprimentou, praticou uma trapaça: Também quero o que deu ao coronel. Ou conto tudo ao seu pai. Gracinha quis dialogar, mas não houve outro jeito. Teve que ceder. Inexperiente, o jovem não se conteve sobre aquele corpanzil com que tanto sonhara. Demonstrou certo constrangimento enquanto experimentava o orgasmo. Cabisbaixo, limpou-se o quanto soube, despediu-se com algum carinho, agradeceu e foi buscar o pão que muitos eleitores haviam deixado de comer.
Dias depois soube que o coronel andava à sua procura e tremia de medo. Será que ele quer me matar? Surpresa maior foi a visita que o coronel fez à casa de Alfredo e seus pais. Objetivo, antes mesmo de saborear um cafezinho, explicou: Vim em paz e o garoto pode ficar tranquilo. Acontece que, sem saber, contaminei uma guria que nós dois conhecemos. Nós três temos que ir ao médico imediatamente, pois o mal se agrava continuamente. Os pais agradeceram a gentileza do coronel. Assim que a mãe deixou o grupo na sala, Alfredo confidenciou: Acho que tenho nada, não. Sinto só uma coceirinha quando mijo e vejo uma coisa gosmenta onde sai a urina.





