Carlos da Silva
Fora uma festa despretensiosa mas agradável. Se é que se pode chamar de festa apenas uma reunião de amigos ou colegas simpáticos. Tinha-se a impressão de que Genoveva escolhera a dedo os convidados. Alfredo parecia aproveitar cada instante. Todos os detalhes ajudavam: gente bonita, música bem modulada, bebida autêntica, diálogos que só o interlocutor ouvia. Enfim, um lugar aconchegante e gente educada. Apenas um detalhe atormentava Alfredo: ele se empolgara com a dedicação da fascinante Letícia que, embora se mantivesse colada a Cornélio, o marido, se desmanchava em gentileza com Alfredo. Poderia ser apenas impressão, mas era verdade. Surpreendentemente carinhosa com ele, a todos tratava bem.
Enquanto Cornélio cumprimentava um grupo recém-chegado de amigos, ela permaneceu tão junto de Alfredo que era possível sentir-lhe o hálito. Noutro momento ela pediu licença para eliminar do seu rosto um sinal de batom que restara de algum cumprimento. Que ousadia. Marca de mulher atrevida deve ser eliminada logo... e esperou pela cumplicidade de Alfredo, que, constrangido e depois de limpar a garganta, não sabia o que responder. Ela continuou: Deve ser eliminada a marca vermelha no rosto e não a mulher. Para incentivá-lo ela pegou seus braços como se fossem dançar e insistiu: Então a marca deixada por outra mulher deve perdurar indefinidamente? A resposta esclarecedora não demorou: Depende do ponto de vista. Aproveitaram a posição e a música e saíram dançando.
Enquanto dançavam Alfredo se desesperava quando as formas do corpo de ambos se encaixavam e ela deixava claro que fora sua iniciativa comprimir ainda mais. Com a boca no ouvido dele, balbuciou somente para ele ouvir: A natureza foi pródiga com você, inteiramente rijo e robusto. Era comportamento de macho e fêmea. Alfredo entrou em pânico também porque em segundos dirigiu o olhar para o rosto de Cornélio que, ao invés de um gesto de censura, piscou um olho como se dissesse: Aproveite a oportunidade.
Ele tentava, mas pareceu que o mundo lhe caíra em cima quando ela confidenciou: Se fosse convidado a ir ao nosso apartamento ao final desta festinha você iria? Na resposta ele gaguejou: E e el ele? Ela pediu-lhe calma e que confiasse nela.
Ao término da festinha, Cornélio se prontificou a levá-lo e Alfredo aceitou. Letícia brincou: Numa noite fria como esta, fica melhor dormir num lugar aconchegante... Cornélio manobrou o carro direto para a garagem e tão logo desligou a ignição ela informou-lhe que Alfredo aceitara convite para visitá-los. Ao chegarem ao apartamento o marido colocou-o à vontade e pediu licença para tomar um banho rápido. A partir desse momento ela foi extremamente generosa com ele. Desatou a gravata, desabotoou a camisa e indagou: Você não vai banhar-se também? E envolveram-se em beijos apaixonados. Nem perceberam que Cornélio havia terminado o banho e já descansava na cama. Os dois despiram-se, foram juntos ao banheiro e ainda úmidos e abraçados ela, embevecida, confidenciou: Tranquilize-se e confie em mim. Agora vamos deitar. O marido foi o último a falar: Se preferir dormir de pijama apanhe um na terceira gaveta da cômoda. Durmam bem, se conseguirem...





