Carlinhos Brown lança disco em espanhol e agora é Carlito Marrón
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quarta-feira, 18 de junho de 2003
Jotabê Medeiros<br> Agência Estado 
São Paulo - Teria Carlinhos Brown trocado os becos do Candeal, em Salvador, pelas ramblas de Barcelona, Espanha? Ele jura que não, isso não passou jamais pela sua cabeça. Mas o fato é que aprendeu a tocar kalincajón e batá e agora ressurgiu repaginado á até o nome veio diferente: Carlito Marrón. ''Como Carlito, seguro no hay dos'', canta o percussionista, cantor e compositor baiano na letra homônima, dele e de Arnaldo Antunes, que abre o novo disco lançado pela BMG do Brasil.
Mas há, sim, muitos Carlitos, e um deles parece um pouco confuso sobre sua inserção no mundo. No Brasil, ele é reconhecidamente um fazedor de barulhos prolixo e controverso. Tem uma musicalidade incontestável, um artista de grande intuição. No disco ''espanhol'' (feito sob encomenda para a EMI daquele País), ele parece ter assumido uma persona de artista da world music, um entre tantos outros - e seu disco ''Carlito Marrón'' não faz senão reafirmar essa impressão.
''Carlito Marrón'' foi lançado em abril e já cumpre boa carreira na Europa (ocupou o 8.º lugar na parada francesa esta semana). Brown cumpre uma agenda de shows no exterior e vai tocar no famoso festival de Roskilde (Dinamarca), além de passar por Amsterdã, Lisboa, Nova York (Lincoln Center) e Madri.
No Brasil, curiosamente, Brown não tem previsão de shows. Não tinha sequer uma agenda de lançamento e mostrou-se sinceramente feliz em ter de novo a chance de falar ao público de seu trabalho-solo. ''Venho para o Brasil no afã de continuar a fazer o meu trabalho aqui'', disse o músico, que se distanciou das gravadoras depois do fiasco do álbum ''Bahia do Mundo - Mito e Verdade'' (2001, EMI, lançamento faraônico e somente 50 mil discos vendidas).
Depois do furacão que foi o trabalho com Marisa Monte e Arnaldo Antunes em ''Os Tribalistas'', o maior sucesso da temporada, Brown retoma suas experiências com sua ''novilíngua'' misteriosa, misturando idiomas e expressões insólitas, uma espécie de portunholayê. ''Minha escrita não é coloquial, dentro de um padrão clássico. É mais tonal, com resquícios de dialetos, um tipo de sânscrito que carrega o português como uma base. Isso é estranho, mas é muito simples também. E as pessoas dizem que é nonsense.''
''Carlito Marrón'' tem participações especialíssimas, convidados do anfitrião. O mais destacado é o percussionista cubano Angá (''O preferido de Wim Wenders'', assinala Brown), que integrou o famoso grupo Irakere e, mais recentemente, a trupe do Buena Vista Social Club. Mas também estão no disco Bebel Gilberto, Rosario Flores, Papi Oviedo e outros.
''É a continuidade do que eu chamo de relativização, de entender que nós somos latinos, que a Bahia nasceu primeiro que Cuba e que a rumba é espanhola'', diz o músico. Em faixas como ''Cumbiamoura'', a discussão é sobre a ''musicalidade panarábica''. É um disco de exílio artístico, com alguma confusão de papéis. Mas ele reafirma sua crença. ''Sou brasileiro, sou baiano, sofro com a seleção. Nunca planejei deixar meu país.''


