Carla Camurati busca Copacabana na Bolívia
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domingo, 19 de setembro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 20 (AE) - Ao telefone, falando com a reportagem da AGÊNCIA ESTADO com a sinceridade que lhe é peculiar, Carla Camurati não contém o espanto: "É incrível como países tão próximos podem ser tão distantes culturalmente, sem nada saber um do outro." Carla está falando da Bolívia. Em agosto ela estave em Copacabana, às margens do Lago Titicaca. Foi fazer pesquisas para o seu longa-metragem sobre o bairro carioca. O que a Copacabana da Bolívia tem a ver com Copacabana do Rio? "Tudo", esclarece Carla.
Ela descobriu que o culto a Nossa Senhora de Copacabana, que deu origem ao nome do bairro carioca, veio da Bolívia. Mas faz a ressalva: "Naquele tempo, Copacabana era uma área de litígio entre Bolívia e Peru; era tudo muito misturado." Em agosto, Carla esteve na Copacabana boliviana para assistir à festa da padroeira local. Encantou-se. Desde então, já voltou à Bolívia e anuncia que vai de novo, talvez em novembro. Tudo por conta de Copacabana, seu filme sobre o bairro do Rio, sobre a praia que já foi definida, em música, como "princesinha do mar."
Carla já está com metade do R$ 1,575 milhão da produção captada. Pretende começar a rodar em fevereiro. "O roteiro já está pronto, mas agora estou naquela fase de melhorar, adensar; descobri coisas muito interessantes na Bolívia que vão enriquecer o prólogo do filme." O adensamento está sendo feito por Carla em parceria com Melanie Dimantas, que já foi roteirista de Carlota Joaquina. Por conta das idas e vindas à Bolívia, Carla ganhou também um parceiro: o governo boliviano está interessado em facilitar a realização desse prólogo no país. E vai publicar a pesquisa feita por Carla com a historiadora Laís Rodrigues.
"Copacabana é um centro religioso pré-incaico", diz Carla, que voltou impressionada com a festa da santa. "O povo tem um elemento de raiz indígena muito forte na Bolívia; eles têm uma relação diferente com a igreja, de festa, de animação." Ela quer trazer esses elementos para o prólogo de seu filme. Acha que, além de reforçar a raiz do filme, vai acrescentar ao relato um elemento pitoresco muito interessante.
A partir desse prólogo, o filme vai mergulhar na vida de Copacabana, tentando revelar a intimidade do bairro famoso por meio de personagens representativos, que vão traçar uma espécie de perfil da fauna local. Será uma comédia filosófica voltada para a terceira idade, define Carla. Quando ela diz isso, as pessoas em geral retrucam: "Ah, vai ser um filme sobre velhinhos?" Sobre terceira idade, mas não sobre gagás, diz Carla, que quer tirar dessa fase da vida o seu caráter negativo, como se no mundo só interessassem juventude e beleza. Ela quer falar sobre a memória individual e coletiva, sobre o passado nobre de Copacabana, mas pretende fazê-lo sem saudosismo.
Copacabana é parte da vida de Carla. Seu avô, ela gosta de contar a história, era chef no Hotel Copacabana Palace, nos anos dourados. Menina, ela circulou muito por aqueles corredores. Copacabana era mito, degradou-se sem perder a magia nem a beleza. O filme será um ato de amor, mostrando o lado lúdico e divertido do bairro, mas sem descuidar da dimensão dos dramas e da dor, que formam o outro lado da moeda. O fato de falar sobre velhos não significa que a narrativa de Carla estará voltada para a decadência. Ela fala no astral do filme como positivo, como foi positivo o astral do desmistificador Carlota Joaquina, que a transformou em diretora-símbolo da fase de retomada do cinema brasileiro. Intérpretes previstos? Aqueles com quem Carla gosta de trabalhar: Marco Nannini, Marieta Severo
Paulo José, todos na faixa dos 50 anos e cheios de vitalidade criadora. Ela cita também Laura Cardoso e Walderez de Barros, maravilhosas.
Cheia de energia, cheia de idéias, Carla prepara o terceiro filme (depois de "Carlota Joaquina" e "La Serva Padrona") oscilando entre cinema e teatro. Ela dirige a montagem de "A Rainha da Beleza de Leenane", peça do do irlandês Martin McDonagh em cartaz no Rio. No dia 6 de outubro a montagem de Carla transfere-se para São Paulo, mais exatamente para o Alfinha (a sala B do Teatro Alfa Real). Xuxa Lopes, Walderez de Basrros e Chico Diaz estão no elenco. No Rio, a crítica foi negativa, mas o público adorou.
"É um texto maravilhoso, impregnado daquela magia que os irlandeses têm e que faz parte da cultura deles", diz Carla. "Um texto bom, muito contemporâneo", acrescenta. No Rio, o público está tendo a mesma reação de empatia que ela ao ler a peça. "As pessoas antecipam os movimentos dos personagens, manifestam agrado ou apreensão." No cinema e no teatro, Carla sabe comunicar-se com as platéias. Espera que o fenômeno se repita em São Paulo.


