É difícil dizer se ‘‘Caráter’’ merecia ou não ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Por enquanto, a comparação só pode ser feita com o concorrente brasileiro ‘‘O Que É Isso, Companheiro?’’, pois os demais indicados ainda não chegaram por aqui. Nesse caso, é preciso deixar o nacionalismo de lado e assumir que ‘‘Caráter’’ é uma produção superior à brasileira em muitos aspectos.
A densidade dramática do filme nos remete à busca do individualismo num meio hostil retratada nas obras de Charles Dickens e, a fotografia sombria, lembra o cinema noir da década de 50. Os méritos de ‘‘Caráter’’ são infinitamente maiores que os de ‘‘A Excêntrica Família de Antônia’’, outra fita holandesa que derrotou ‘‘O Quatrilho’’ no ano passado. Aqui é preciso fazer uma ressalva: o filme de Fábio Barreto era muito melhor e merecia levar a estatueta.
‘‘Caráter’’ é o primeiro longa do jovem diretor Mike Van Diem. Ele começou a estudar cinema aos 26 anos e, atualmente, está com 39 anos. Baseado num famoso romance holandês, o filme conta a história de um jovem advogado que é acusado de matar o homem mais importante da cidade. Ele jura inocência, mas quando a polícia descobre que a vítima é seu pai, surge uma comovente e dolorosa história sobre a difícil relação entre pai e filho, com toques edipianos.
Nascido de uma única relação sexual entre seu pai e a empregada doméstica, o jovem Katadreuffe cresce na pobreza e sofrendo todos os tipos de humilhações. Em flashbacks, o filme vai revelando a busca do menino pelo pai num universo marcado pela austeridade. ‘‘Caráter’’ é, sobretudo, uma fita sobre a renúncia. Para provar ao pai que conseguiria vencer na vida mesmo sem sua ajuda, Katadreuffe renuncia ao amor da mulher amada para se dedicar, exclusivamente, ao sucesso profissional.
Do ponto de vista psicanalítico, ‘‘Caráter’’ é um prato cheio. Apesar de viver afastado do pai desde criança, Katadreuffe mantém com ele uma relação de amor e ódio, que o transforma num jovem amargo, ambicioso, introvertido e obcecado. No entanto, o diretor Mike Van Diem conduz o filme sem cair nas armadilhas psicanalíticas, proporcionando ao telespectador uma história densa e apaixonante.
Para quem está acostumado à objetividade do cinema norte-americano, o estilo esquisito e arrastado das produções holandesas pode incomodar um pouco. Mas a obra de Mike Van Diem desvenda uma vida de privações. Para isso, o cineasta optou por uma fotografia monocromática, dando ao filme um visual burocrático e pesado. Os figurinos dispensam as cores vivas, optando por tons em preto, cinza e branco, realçando a crueza da história que não poupa o telespectador de um clima sufocante, mas inteiramente humano. Lançamento da Paris Filmes. Duração 119 minutos. (C.M.)

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