'Carandiru' tem acolhida neutra
Nem sim, nem não, em todo o caso...Exibido domingo à noite para a crítica como fecho de um exaustivo repertório de imagens proposto pela programação do festival ao longo do fim de semana, ''Carandiru'' provocou um tímido princípio de aplausos imediatamente sufocado por um tímido princípio de vaias. Como nenhum dos dois vingou, e diante deste empate técnico, o resultado imediato e honroso foi a neutralidade. Menos mal, já que a última recordação da passagem de Hector Babenco pela mostra competitiva de Cannes foi no mínimo deprimente, com sonoríssimos apupos e nenhuma palma (a de Ouro então, nem pensar) para ''Coração Iluminado'', delirante exorcismo autobiográfico há muito recolhido à vala do esquecimento.
Na coletiva da manhã de ontem, um tanto esvaziada pela marcha triunfal de von Trier, Nicole Kidman e comitiva, alguns minutos antes, a acolhida foi mais simpática. Na mesa, Drauzio Varella, Babenco, Rodrigo Santoro, Maria Luiza Mendonça, Caio Blat e Aida Lerner. O veterano mediador Henri Behar e Babenco praticamente monopolizaram os 40 minutos da entrevista. Entre os atores, Rodrigo Santoro - uma impressionada colega brasileira o define como ''nosso melhor recado genético para o mundo'' - foi o mais articulado a defender a categoria. Além do inglês competente, discorreu com preciosos detalhes sobre como foi o trabalho de ''incorporação'' do personagem Lady Di e a descoberta do universo dos travestis. Varella deu depoimento verbal tão claro e eficiente quanto o que está no livro, impressionando os jornalistas quando disse que na prisão nunca pretendeu ser o bonzinho ou fazer o bem ou consolar. ''Simplesmente me sentei, cliniquei com meu estetoscópio e ouvi tudo o que tinha para ser ouvido''.
O problema com Babenco é a veia professoral incontrolável. Prolixo, cada resposta, que deveria ser simples, foi transformada em mini-conferência sobre o sistema penitenciário, sobre o perfil do espectador brasileiro, sobre a escalada cada vez maior da violência no País, sobre as mazelas e descaminhos provocados pela desigualdade social, pela má distribuição de renda, pela falência do sistema educacional, pela...(C.E.L.J.)
O jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge está em Cannes a convite do festival e com apoio da Sercomtel.





