'Carandiru' é destaque nacional
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de abril de 2003
Carlos Eduardo Lourenço JorgeEspecial para a Folha2 
São 247 cópias em exibição a partir de hoje num amplo circuito de quase 300 salas brasileiras, o que oferece ao nacional ''Carandiru'' o destaque de um blockbuster estrangeiro - só no Paraná o lançamento está em Curitiba, Maringá, Cascavel e Londrina (veja a programação de cinema na página 2). Se o filme vai ou não corresponder às expectativas de marketing da Columbia-Sony Pictures já é uma outra história. O fato é que potencialmente o filme de Hector Babenco tem tudo para motivar o chamado grande público, que anda em lua-de-mel com o cinema brasileiro, especialmente depois dos 3 milhões de ingressos creditados a ''Cidade de Deus''.
Baseado no best-seller ''Estação Carandiru'', escrito pelo médico Dráuzio Varella, a adaptação assinada (com Fernando Bonassi) e dirigida por Hector Babenco procura ir fundo no dia-a-dia dos presos que habitavam o presídio do Carandiru em 1992, quando ocorreu o massacre que exterminou 111 encarcerados. Com a missão de fazer um trabalho preventivo contra a AIDS, um médico (Luiz Carlos Vasconcellos) chega ao centro de detenção. Ali ele encontra uma centena de presos sobrevivendo em condições humilhantes, mas ainda assim buscando preserva a individualidade e a dignidade. Todos, sem exceção, têm duas histórias para contar: uma, recheada de lembranças da existência que deixou fora da grades, e a outra, de sobrevivência atrás daqueles muros, entre aquelas quatro paredes.
Zico (Wagner Moura) e Deusdete (Caio Blat) eram amigos inseparáveis na infância e trilharam caminhos diferentes vida afora, mas acabaram se reencontrando de novo no presídio. O traficante Majestade (Ailton Graça) tinha duas famílias quando foi preso, e até hoje as duas mulheres suspiram por ele. Chico (Milton Gonçalves) está quase cumprindo toda a pena, e por isso gasta seu tempo derradeiro fazendo balões. Nego Preto (Ivan de Almeida) é uma espécie de juiz na cadeia; seus muitos problemas acabam causando a ele um estresse. O matador Teixeira (Milhem Cortaz) coleciona condenações: atualmente tem 39 e está à procura de alguma coisa que alivie o peso da consciência. Lady Di (Rodrigo Santoro) e o ''enfermeiro'' Sem Chance vivem um idílio pessoal impossível em meio a tantos horrores. Estes, entre muitos outros com dramas semelhantes, são os presidiários que em outubro de 1992 não tinham idéia da tragédia que cairia sobre suas cabeças.
Hector Babenco, argentino naturalizado brasileiro, teve em ''Carandiru'' a chance de ampla reabilitação depois do decepcionante mergulho autobiográfico em ''Coração Iluminado'' a partir do sólido argumento proporcionado pelo olho clínico de Varella, e novamente trabalhando o material humano que conhece e analisa sempre com objetividade - os excluídos e marginalizados da sociedade, como ''Pixote'' e ''Lucio Flavio''. Resta saber agora se o resultado ficou à altura do currículo do diretor e principalmente da fonte ilustre.


