'Carandiru' concorre à Palma de Ouro
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quarta-feira, 23 de abril de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
A comissão organizadora do 56º Festival de Cannes, que acontece de 14 a 25 de maio, anunciou ontem durante coletiva em Paris a seleção oficial da mais prestigiada mostra internacional de cinema. Entre os 20 longas-metragens que vão competir em busca da cobiçada Palma de Ouro está ''Carandiru'', o drama penitenciário que Hector Babenco dirigiu a partir do best-seller do médico Dráuzio Varella. O filme, em lançamento no Brasil há apenas 13 dias, está em exibição em circuito de 292 salas em todo o País e cumpre uma sólida carreira de sucesso, tanto comercial quanto de crítica, repetindo a trajetória de ''Cidade de Deus'', outra recente e bem-sucedida performance do cinema brasileiro deste início de século. Segundo informou ontem por telefone a assessoria de imprensa da HB Filmes, até segunda-feira 1 milhão, 543 mil e 323 espectadores tinham deixado nas bilheterias R$ 10 milhões e 817 mil.
Mas o Brasil não concorre apenas na principal categoria de Cannes. ''A Janela Aberta'', do carioca Philipe Barcinski, também foi selecionado e é um dos nove concorrentes à Palma de Ouro na categoria curta-metragem. Na tradicional mostra paralela Quinzena dos Realizadores, não competitiva, aparece mais um brasileiro, o longa ''Filme de Amor'', de Julio Bressane.
A diversidade de origens marcou a seleção de competidores, mas não deixou de ser notada a discreta participação americana, com apenas três filmes, e a inglesa, com um único longa-metragem dirigido por Peter Greenaway na verdade uma co-produção pan-européia sem bandeira definida. Mas os americanos têm outros dois filmes na paralela ''Um Certain Regard'', uma badaladíssima pré-estréia mundial (''Matrix Reloaded'') e mais um documentário em sessão especial, o que levou Thierry Fremaux, diretor artístico da mostra, a comentar durante a coletiva: ''Esta presença americana significa, se isto ainda fosse necessário, que o cenário mundial do momento não exerceu nenhum efeito negativo na tradição de amizade entre o cinema americano e o Festival de Cannes''.
Por outro, a comitiva francesa está particularmente reforçada, com cinco representantes. O Irã marca presença outra vez com a ''caçula'' entre os realizadores, Samira Makhmalbaf. Na abertura, a produção francesa ''Fanfan la Tulipe'', e no encerramento o clássico imortal de Chaplin, ''Tempos Modernos'', que será visto em projeção digitalizada em alta definição, a partir de uma cópia restaurada pela Cinemateca de Bolonha. A grande homenagem a Federico Fellini, que morreu há dez anos, inclui extensa programação, desde mostra de fotos, cartazes e desenhos de autoria do cineasta até concertos públicos diários ao longo da Croisette (trilhas de Nino Rota e Nicola Piovani), passando pela retrospectiva com uma seleção de longas e culminando com uma raridade: o documentário ''L'Ultima Sequenza'', que mostra uma alternativa até então desconhecida mas filmada por Fellini para o final de ''8'', clássico que está comemorando 40 anos.
Embora lamentando a ausência este ano de vários habituais frequentadores da competição, que não puderam concluir a tempo seus filmes (os irmãos Joel e Ethan Coen, Wong Kar-wai, Bernardo Bertolucci, Quentin Tarrantino, James Ivory e Theo Angelopoulos, entre outros, Thierry Fremaux afirmou que ''a competição que se vai assistir no mês que vem é uma forma de valorizar a riqueza da criação cinematográfica mundial: as diferença de lingua se anulam diante da universalidade das imagens e as bandeiras se misturam numa desordem festiva''.


