São Paulo, 6 (AE) - Arquiteto de formação, o pianista Fábio Caramuru foi um dos últimos alunos de Magda Tagliaferro. Há dois anos lançou um CD em homenagem ao criador da bossa nova, "Tom Jobim Piano-Solo (selo Masterclass), hoje esgotado. Amanhã (7), a partir das 18 horas, Caramuru lança seu segundo disco, "Especiarias do Piano Paulista", no Restaurante Cittadino (Rua Renato Pais de Barros, 994, tel. 828-0302, Itaim). Nele, o pianista homenageia dois compositores paulistas, Camargo Guarnieri (1907-1993) e Inah Machado Sandoval, de 93 anos, que vai estar amanhã (7) na noite de autógrafos de Caramuru.
É a primeira vez que Tia Inah, como é carinhosamente chamada, é gravada. Nascida em São Paulo em 27 de maio de 1906, ela começou a aprender piano com a mãe, compondo sua primeira obra ainda moça. Casou, teve quatro filhos e nunca parou de compor. São dela as 12 peças que abrem o disco, entre as quais sua quinta "Valsa Brasileira" e a suíte dedicada a Branca de Neve e os Sete Anões. "Para Branca de Neve ela compôs uma valsa e cada um dos anões ganhou um chorinho", diz o intérprete, lembrando que Tia Inah escreveu essas obras em 1943, quando o clássico estreou no Brasil (a produção do primeiro desenho animado de Walt Disney é de 1937).
"Conheci Tia Inah há quatro anos, apresentado por seu sobrinho Paulo Ramos Machado", conta Caramuru, que ficou fascinado com o ecletismo da veterana compositora. "Ela passeia por vários gêneros, do choro à dança afro, passando por valsas e tangos." A obra da compositora, segundo o pianista, mantém um diálogo íntimo com a obra de Nazaré e Zequinha de Abreu, merecendo por parte dos especialistas uma urgente revisão.
No segundo bloco, Caramuru buscou o contraste violento da obra de Camargo Guarnieri, selecionando estudos, ponteios, choros e valsa do compositor paulista, injustamente deixado de lado quando muitos críticos o consideram à altura de Villa-Lobos. Para encerrar de vez a polêmica sobre o "intransigente" nacionalismo de Camargo Guarnieri, o pianista pediu ao compositor Hans-Joachim Koellreuter, seu "opositor", que escrevesse sua opinião nas notas de apresentação.
O compositor elogia as peças "de tendências classicistas e românticas" de Camargo Guarnieri, "repletas de efeitos coloridos e expressivos, interpretadas com transparência pelo pianista". Explicando os contrastes entre os dois blocos, Caramuru define a obra de Tia Inah como "melódica, harmônica e popular", contrastando com a "complexidade contrapontística" de Camargo Guarnieri. "Em síntese, trata-se do contraste entre uma elaboração de caráter feminino e outra, de caráter viril."
Caramuru agora prepara sua tese de mestrado sobre Tom Jobim, dissertação que será apresentada em agosto. "Cansei do repertório-padrão e comecei a estudar exaustivamente sua obra, que já apresentei em concertos na Rússia, Alemanha, França e nos Estados Unidos, sempre com sucesso por causa de sua qualidade harmônica e facilidade de comunicação."

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