Caraça, MG - O lobo-guará, atração constante e infalível para os turistas no Caraça, em Minas Gerais, desde o inverno de 1982, começa a enfrentar a concorrência da onça-parda, ou suçuarana, de presença cada dia mais próxima e frequente nos arredores do santuário ecológico.
Construído no fim do século 18 pelo português Irmão Lourenço, um nobre de sobrenome Távora que chegou a Minas fugindo do Marquês de Pombal, o Caraça foi centro de peregrinação, colégio e seminário até 1968, quando um incêndio destruiu parte de suas instalações. De propriedade da Congregação da Missão dos Padres Lazaristas de São Vicente de Paulo, funciona agora como pousada turística, cultural e religiosa. Tem uma biblioteca de 30 mil volumes e acomodações para 180 hóspedes. O santuário fica a 120 quilômetros de Belo Horizonte, entre as cidades de Barão de Cocais e Santa Bárbara. Pertence ao município de Catas Altas.
De março a julho, a onça-parda foi vista quatro vezes nas matas três vezes caminhando à noite pelo asfalto e uma vez ao amanhecer, deitada na areia de uma trilha. ''Topei com a onça antes das 7 horas, quando eu ia sozinho para a gruta da Bocaina'', contou o botânico Rubens Custódio da Mota, aluno de pós-graduação da Universidade de Minas Gerais (UFMG). Ele estava coletando dados na serra para sua tese de mestrado sobre orquídeas raras.
''Fiquei assustado com a onça, mas ela parecia ainda mais assustada do que eu: ao me ver, a onça se levantou, ficou rodando em círculos alguns minutos e depois fugiu.''
Ao ouvir esse relato, o padre Lauro Palú, que estudou quatro anos no Caraça e agora é diretor do Colégio São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro, se surpreendeu com a calma demonstrada pelo botânico. ''Por que não voltou para casa, em vez de continuar sua caminhada?'', perguntou o padre, lembrando que, se é verdade o que diz uma crença popular, a onça é um bicho traiçoeiro que costuma atacar pelas costas.
Outra surpresa foi a onça ter aparecido pela manhã, mesmo sendo para tomar sol numa prainha isolada do córrego da Bocaina. ''Nas três vezes em que foi vista andando pela pista de asfalto, na subida da serra, foi sempre à noite'', disse o padre Sebastião Carvalho, administrador da casa, que topou com a onça em março. Ele e outros dois padres que a viram na estrada, nas semanas seguintes, estavam de carro.
Não deu medo, porque a onça se assustou com os faróis e se refugiou no mato.
A bióloga Consuelo Paganini, coordenadora ambiental da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Caraça, relaciona a onça-parda entre mamíferos ameaçados de extinção que sobrevivem e proliferam nas matas e grutas da serra. Além do lobo-guará, a lista inclui anta, macaco-guigó, tamanduá, lontra, tatu-de-rabo-mole, catetu e jaguatirica, que é uma onça-pintada de pequeno porte. Sem falar em irara e cachorro-do-mato, também chamado de raposa.

SERVIÇO
O Santuário do Caraça fica em Santa Bárbara, Minas Gerais. Diárias a partir de R$ 105 por pessoa, em acomodação dupla, com pensão completa. Informações: (0--31) 383-2698.

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