Já foi-se o tempo em que histórias em quadrinhos eram vistas como uma diversão exclusiva para crianças. Na última década, o universo das HQs consolidou de maneira expressiva seu espaço na indústria do entretenimento mundial e, misturando fantasia com temas adultos, conseguiu atingir uma massa de público sem precedentes; ganhando uma visibilidade ainda maior através de adaptações para o cinema de séries como ''Watchmen'' e ''Sin City'', que há muito tempo já eram aclamadas como clássicos na arte dos quadrinhos.
Fazendo o caminho inverso, agora os traços nos papéis é que servem como meio de adaptação e de impulso para a divulgação de clássicos da literatura, exercendo uma função pedagógica e servindo como uma introdução para obras de escritores renomados. Com essa nova roupagem, pouco a pouco grandes textos da literatura estão saindo do fundo das prateleiras e reassumindo uma posição de destaque nas livrarias.
''Acompanhando a tendência de tudo no Brasil, os quadrinhos também estão em um grande momento. Apesar da nossa tradição antiga, que vem desde os anos 80, existe agora uma mulecada fazendo coisas muito boas e chegando cheia de gás'', declara o cartunista Caco Galhardo, criador da tira 'Os Pescoçudos' - publicada nos jornais Folha de S. Paulo e O Globo - e convidado da Flip 2011 para participar da mesa-redonda 'Histórias em quadrinhos, o que acontece hoje'. Um dos trabalhos mais famosos de Galhardo foi desenhar a adaptação de ''Dom Quixote'', do espanhol Miguel de Cervantes, para o formato de quadrinhos. ''Foram 70 mil exemplares vendidos, e já fechei com a editora para fazer um segundo volume para ser lançado no final deste ano'', declara o cartunista, animado com as possibilidades.
Esse mercado especial começou a ser rabiscado para as HQs em 2006, quando o programa governamental Biblioteca na Escola (PNBE) incluiu adaptações literárias de histórias em quadrinhos na lista para serem distribuídas em instituições de ensino espalhadas pelo território nacional. Conseguindo alcançar uma maior visibilidade do público jovem, as editoras começaram a apostar na ideia de HQs neste formato. ''É preciso ter um tremendo respeito pelo original. A adaptação para os quadrinhos nunca vai ser comparável à leitura da obra completa, mas pode servir como uma ponte, uma introdução para os jovens se interessarem pelos clássicos'', afirma Galhardo, apontando diferenças fundamentais entre os formatos. ''É um trabalho difícil transformar um livro de 600 páginas em uma revista desenhada de 40 páginas. Em comparação, é como pegar a obra do escritor e fazer um curta-metragem: é uma outra linguagem, uma outra coisa'', completa.
Seguindo essa tendência literária, os desenhos de ''A Divina Comédia'' (ed. Peirópolis) procuram captar a complexa jornada entre os Céus e Infernos relatados na obra-prima do poeta italiano Dante Alighieri. ''Foi um grande desafio, mas também uma experiência muito prazerosa. Adaptar toda a iconografia medieval e os textos detalhados da ''Comédia'' acabou sendo um trabalho incrível'', admite o quadrinista italiano Piero Bagnariol que, com apoio dos textos de seu pai Giuseppe, trabalhou durante um ano para transmitir com fidelidade as peculiariedades da obra de Alighieri. ''A ideia principal dessa transposição para os quadrinhos é de simplificar o acesso à essa obra magnífica que, tanto pela forma quanto pelo conteúdo, percorre temas atuais através de uma jornada espiritual'', reflete Piero, que já planeja adaptar no futuro uma versão da ''Odisséia'', de Homero.
Outro lançamento em HQ que conta a história de uma importante obra da literatura mundial é a adaptação da tragédia shakesperiana ''Hamlet'' (ed. Farol Literário). O conteúdo da revista é repleto de desenhos sombrios, que pautam um clima de loucura e assassinato. ''Eu decidi não delimitar a história apenas para o público jovem. Os quadrinhos de Hamlet podem ser apreciados por todos aqueles que queiram entrar em contato com uma versão mais acessível de Shakeaspeare'', declara Bruno S.R., responsável pela adaptação das falas do texto diretamente para os balões dos quadrinhos. ''Por se tratar de uma história dramática, procurei fazer uma adaptação da maneira mais universal possível'', completa. A editora Farol Literário já lançou outros exemplares com o mesmo formato, como ''Robinson Crusoé'', de Daniel Defoe, e ''O Cão dos Baskerville'', de Conan Doyle, e aproveita cada vez mais este nicho de mercado; outros seis lançamentos de 'quadrinhos literários' estão previstos para este ano.
Sejam nos traços de um velho ranzinza como Quixote, passeando pelas profundezas sombrias do Inferno ou nas loucuras shakesperianas, esse novo cenário mercadológico é ainda um rascunho perto do potencial que as histórias em quadrinhos podem vir a desenhar no Brasil. ''No final, nós fazemos parte de um processo artístico, criativo e trabalhoso como qualquer outro. Acho que finalmente os quadrinhos estão começando a ser devidamente valorizados pelo público e chamando cada vez mais a atenção das editoras'', conclui o cartunista Caco Galhardo.

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