Cara a cara com Saramago
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de março de 1999
Antônio Mariano Júnior 
A entrevista começa com uma boa pergunta: Para que serve a literatura? E o entrevistado, com aquele jeito meio carrancudo, responde sem titubear: No fundo, eu acho que a literatura não tem que servir para ou servir a. A literatura é simplesmente um modo de uma pessoa dizer quem é, ou talvez levar o leitor a saber quem ele é. Bela resposta.
Esse é apenas um trecho da entrevista que o escritor português José Saramago concedeu à jornalista brasileira Marília Gabriela e que será exibida em duas partes, pelo canal pago GNT, sempre as 21 horas, no programa Marília Gabriela Entrevista. A primeira será hoje. A outra, no dia 6 de maio. Ambas têm uma hora de duração. É a primeira vez que o programa divide uma entrevista em duas partes.
O motivo principal dessa exceção se deve, em primeiro lugar, pela importância de José de Sousa Saramago, 76 anos, prêmio Nobel de Literatura de 98. O outro é que para surpresa da produção do programa, o escritor, tido como sisudo e de poucas palavras, se mostrou generoso - ou pego pelo característico jeitinho que Marília Gabriela tem de envolver seus entrevistados - e falou, falou, falou.
A entrevista foi gravada em Coimbra, cinco meses depois de Saramago ter sido escolhido como o primeiro escritor de língua portuguesa a ganhar o Nobel de Literatura. Claro, o assunto não poderia deixar de ser explorado no bate-papo. E sem maiores deslumbramentos, o escritor disse o que achou de ter sido escolhido para tão nobre prêmio. De fora para dentro as coisas mudaram muito. As pessoas já não vêem em mim o José Saramago; elas vêem o prêmio Nobel. Espero que isso passe rapidamente pois é demasiada carga- afirma.
Marília Gabriela conseguiu até mesmo arrancar declarações de Saramago sobre sua vida particular - por exemplo, o encontro com o grande amor, Pilar del Rio, com quem vive há 13 anos. Ele a conheceu quando tinha 64 anos. E fala com gosto dessa paixão. Aos 64 anos, um homem não espera mais nada da vida. Ele limita-se a viver o melhor que puder os anos que lhe restam. Hoje considero minha vida como se tivesse sido uma longa preparação para chegar num certo momento que foi esse quando encontrei Pilar- derrama-se o escritor.
José Saramago, que já confirmou presença na 9ª Bienal Internacional do Livro, a ser realizada em abril, no Rio de Janeiro, tem uma obra expressiva - são mais de 20 publicações entre romances, poesias, ensaios e peças de teatro, muitas delas vertidas para 25 idiomas.


