Ousadia é o que não falta à jornalista Marília Gabriela. Aos 52 anos de idade, 31 deles dedicados ao jornalismo, ela não se cansa de experimentar novas situações. Recentemente, por exemplo, trocou o tradicional SBT pela recém-criada Rede TV!. O empresário Sílvio Santos ainda tentou convencer a apresentadora do ‘‘De Frente com Gabi’’ a permanecer na emissora em troca de uma proposta de R$ 1 milhão mais R$ 150 mil de salário, mas ela não aceitou. Em vez disso, preferiu fechar com a Rede TV!, onde apresenta ‘‘Gabi’’, programa noturno de entrevistas que alcança uma média de sete pontos de audiência. ‘‘A Rede TV! é uma emissora jovem que me permite ousar. Eles são bastante profissionais e o salário é razoável. Está bom para mim’’, avalia.
Por ‘‘salário razoável’’ entende-se cerca de R$ 75 mil por mês mais participação em merchandising. Mas Marília Gabriela não tem do que se queixar. Muito pelo contrário. Paralelamente ao ‘‘talk-show’’ na Rede TV!, ela ainda comanda o programa ‘‘Marília Gabriela Entrevista’’, no canal por assinatura GNT, da Globosat, e faz entrevistas ao vivo, todas as segundas e quintas, para o ‘‘site’’ UOL. Longe de reclamar de cansaço, ela se diz realizada por não dispor de tempo livre. Se dispusesse, seria capaz de entrar em parafuso achando a vida um tédio.
Como se não bastasse, Marília Gabriela ainda arranja tempo para se aventurar como atriz. Por sugestão do diretor Gerald Thomas, ela aceitou trabalhar em ‘‘Esperando Beckett’’, monólogo escrito pelo próprio Gerald a partir de textos do dramaturgo irlandês. Bem-humorada, Marília se apressa em dizer que não pretende seguir os passos do marido, o ator Reynaldo Gianecchini, que interpreta o Edu de ‘‘Laços de Família’’. Fazer novelas, por exemplo, está fora dos planos. ‘‘Sou jornalista e tenho verdadeira paixão pelo que faço. Meu trabalho é unicamente fazer entrevistas’’, garante.
Ao longo da carreira, Marília Gabriela já contabiliza quase 10 mil entrevistas. Ela mesma reconhece que não sabe o que faria da vida senão fosse jornalista. E foi justamente isso o que ela disse ao então diretor de jornalismo da Globo de São Paulo, Paulo Mansur, em 1969, quando procurou emprego na emissora. Logo no primeiro dia de trabalho, um repórter faltou e a estagiária Marília Gabriela Baston de Toledo foi convocada às pressas para fazer sua primeira reportagem. Não demorou para ela assumir as bancadas do jornal ‘‘Hoje’’ e, mais adiante, do programa ‘‘Fantástico’’.
Ainda na Globo, Marília Gabriela fez história ao apresentar, no início dos anos 80, o programa ‘‘TV Mulher’’, com a participação de Ney Gonçalves Dias, Marta Suplicy, atual prefeita eleita de São Paulo, Henfil, Clodovil, entre outros. Na emissora, ela trabalhou ainda como correspondente estrangeira na Europa por seis meses. Em 1985, Marília se transferiu para a Band. Lá, tornou-se uma célebre mediadora de debates, desde o período da abertura política até as eleições presidenciais de 1989. À frente do ‘‘Cara a Cara’’, entrevistou personalidades internacionais, como Yasser Arafat, Shimon Peres e Fidel Castro.
A década de 90 foi a de maior instabilidade na carreira de Marília Gabriela. Depois que saiu da Band em 95, ela ainda passou pela CNT e SBT antes de fechar com a Rede TV!. Na CNT, Marília apresentou um programa de auditório que não durou um ano sequer. Já no SBT, onde ficou por quatro anos, comandou os programas ‘‘SBT Repórter’’, ‘‘First Class’’ e ‘‘De Frente com Gabi’’. Paralelamente à carreira na tevê aberta, Marília estreou também no canal por assinatura GNT. Lá, apresentou ‘‘Aquela Mulher’’ por dois anos e ‘‘Marília Gabriela Entrevista’’ desde 97.
Em 1994, lançou ‘‘Cara a Cara com Marília Gabriela’’ pela Editora Siciliano. O livro reproduz entrevistas com nove políticos brasileiros, como Leonel Brizola e Luiz Inácio Lula da Silva, entre outros, e traça um retrato do Brasil na transição do governo militar para o civil.
Você está prestes a completar seis meses de Rede TV!. Que avaliação faz deste período?
Estou satisfeitíssima. A equipe do programa é afinadíssima e a direção da emissora tem me tratado com a maior correção. Não tenho nenhuma reclamação a fazer.
Você não pensa em voltar para a Globo?
Por enquanto, não. O que eu vou fazer lá? A Globo está com problemas de superlotação. Você vê gente contratada com dificuldade de arranjar espaço na programação. Cresci dentro da emissora. Foi lá que aprendi a fazer tevê e onde tenho grandes amigos, como o Roberto Irineu Marinho. Mas sei que ainda não é a hora de voltar para lá.
Em nenhum momento você ficou receosa de fechar contrato com uma emissora recém-inaugurada?
Quando recebi o convite, fui até eles com uma postura muito inquisidora. Fiz um monte de perguntas e eles responderam tudo com a maior correção. Eles me queriam lá para fazer um programa noturno de entrevistas. Para mim, seria interessante desde que tivesse algo novo que me motivasse tanto quanto quero motivar o público. Expus, então, a idéia de casar tevê e Internet e eles toparam na hora.
Em 1995, você saiu da CNT por falta de estrutura. Você não teme de acontecer o mesmo na Rede TV!?
Para o que faço, a Rede TV! tem toda a estrutura de que preciso. Além do mais, fui para a Rede TV! com a boa vontade de quem está indo para uma emissora nova, pequena. Mas há a compensação de estar a fim de fazer uma coisa nova. Todos na emissora estão predispostos a acertar e eu também. A gente quer que tudo dê certo e o meu programa não exige muita coisa. Exige apenas uma produção afinada. Hoje em dia, a minha equipe é tão afinada que trabalho com uma margem de erro muito pequena. Se algo dá errado, eles já têm outra coisa para botar no lugar.
O que mais motivou a sua saída do SBT?
Eu me sentia um ioiô no SBT, sendo jogada de um lado para o outro. O Sílvio não foi correto comigo. A princípio, ele me pediu um projeto que me custou seis meses de trabalho. Mexi com a vida profissional de um monte de gente e o programa já estava previsto para estrear em março. Em janeiro, o Sílvio chegou a me ligar em Nova York para confirmar que eu faria o programa de segunda a sexta. Voltei para o Brasil e, de repente, o Sílvio me disse que mudou de idéia. Isso depois de seis meses de um vaivém maluco. Aí, pensei: ‘‘Ele mudou de idéia e eu também’’.
Você se sentiu desprestigiada pelo Sílvio Santos?
O Sílvio faz esse tipo de mudança na programação a toda hora, mas as coisas não são bem assim. Respeito a carreira que tenho e que dá sustento aos meus filhos. Acho que você não pode se permitir ter medo e ficar ao Deus-dará. Depois de 31 anos de carreira, você precisa ter as rédeas de sua vida nas mãos. Não pode entregá-la às outras pessoas. Muito menos quando querem fazer isso de forma irresponsável.
A que você atribui seu sucesso como jornalista?
Sempre tratei meus entrevistados com a maior delicadeza do mundo. Nunca invadi a privacidade de ninguém sem pedir perdão. Eu sempre aviso quando tenho de fazer alguma pergunta mais indiscreta. ‘‘Olha, vou parecer atrevida, mas preciso obter uma informação que julgo importante’’. Sempre dei e vou continuar dando o direito às pessoas de se explicar, de esclarecer uma situação ou mesmo de responder ou não a determinada pergunta. Sempre tratei os meus entrevistados com muito respeito porque todo mundo merece muito respeito.
Alguma vez, você chegou a perder a paciência com algum entrevistado?
Já. Há pouco tempo, tive vontade de dar uma martelada na cabeça da Madonna. Ela me desconcentrou muito porque foi muito metida comigo. E eu era tão fã dela. Fiquei desconcertada. Nunca imaginei que ela fosse se comportar daquela forma. Fora isso, não lembro de nada mais grave. Francamente, gosto muito de todas as entrevistas que já fiz até hoje. Às vezes, posso estar com um problema do tamanho de um bonde, mas me transformo, fico legal à beça quando entro no estúdio e sento na frente de alguém. Não saberia viver sem fazer perguntas e ouvir respostas.
Depois de 31 anos dedicados a fazer perguntas e ouvir respostas, você estréia como atriz em monólogo do Gerald Thomas. Você não teme críticas?
Aos 52 anos, você aprende a ligar um ‘‘botãozinho’’ que não vou dizer o nome por ser educada, mas que quer dizer ‘‘dane-se o mundo’’. Quanto mais amada e venerada eu for, melhor para mim. Mas estou muito mais preparada agora para receber críticas do que estava aos 30 anos, por exemplo, quando lancei dois discos. Não vou deixar de ter prazer e arriscar coisas novas por medo da opinião dos outros. A opinião dos outros, como o próprio nome diz, é dos outros. A minha opinião é a que interessa. A minha e a das pessoas que me cercam.
Você gostou de participar do comercial da Intelig ao lado do Reynaldo Gianecchini?
Gostei. A experiência foi muito legal. O texto era divertido e a grana muito boa. O que mais eu podia querer? Foi tudo muito divertido. O problema é que, desde então, já recebemos diversos outros convites, como redes de supermercado e agências de viagem. Só fizemos aquela porque era muito divertida. Encheram tanto meu saco com os beijos que o Giane tão bem deu na novela que esperavam que eu estivesse sofrendo horrores. Pena que eu não estava...
Você pretende seguir a carreira de atriz também na tevê?
Não. Aí fica difícil. Estou satisfeita demais com essa nova experiência. O próprio Gerald Thomas anda me convencendo de que estou fazendo bem o meu trabalho. Mas adoro o que faço. Sou jornalista e tenho paixão pelo que faço. Meu trabalho é unicamente fazer entrevistas na vida. Não saberia viver sem inquirir os outros. Só estou fazendo o monólogo porque consegui coordenar as duas coisas. Caso contrário, dificilmente deixaria o jornalismo. A essa altura do campeonato, não vou abandonar uma profissão para começar outra.
Você não tem medo de envelhecer?
Atualmente, atravesso uma das melhores fases da minha vida. Eu me sinto feliz, bem-amada, na calmaria. Mas envelhecer é um inferno. Tenho de admitir isso. É difícil explicar como é a cabeça de quem tem 52 anos. Você tem a mesma energia mental e a mesma inquietação de antes. Só que o corpo já não tem mais o mesmo vigor de antes. É um descompasso. A sensação é de juventude. Mas, quando você olha no espelho, percebe que o corpo não acompanha o frescor da cabeça.

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