A solidão asfixiante no peito de cada um. O fotógrafo curitibano Ricardo Almeida acredita que levará cinco anos o projeto iniciado ano passado sobre o tema ‘‘Coletivo Solitário’’, que envolve cinco grupos: presídio, hospital psiquiátrico, asilo de velhos, meninos de rua no mocó (local onde moram) e pessoas utilizando transportes coletivos.
Porém, parte desse trabalho poderá ser apreciado na 2ª Bienal Internacional de Fotografia, que se realiza no mês de agosto em Curitiba. Almeida fará uma individual durante o evento, com 30 fotos no tamanho 40x50 cm, mostrando as variadas faces da solidão.
Ricardo AlmeidaFoto feita em 1997 no Presídio do AhuHá cerca de oito anos ele vinha perseguindo essa idéia, mas ainda não havia chegado o momento. Entre outubro e novembro de 1997 passou pelos portões do Presídio do Ahu e ali começou sua trajetória rumo ao fosso. ‘‘É um processo individual meu de entender essas pessoas. Os dois grupos até agora fotografados, da penitenciária e do asilo, têm características e expectativas diferentes.’’
Trafegando nesses mundos Ricardo começou a perceber as diferentes paisagens da asfixia. Enquanto o presidiário sabe porque está na cadeia, e anseia pela liberdade, os velhos nem sempre compreendem seus destinos e esperam pela morte. São duas portas redentoras colocadas em posições opostas: uma direcionada para a vida, a outra para o esquecimento, o sono.
Ricardo AlmeidaRicardo Almeida: mais cinco anos para terminar o projeto
Ainda dentro das perspectivas da cadeia e do asilo tem-se o sonho como material tangível para os prisioneiros. Uma foto mostra essa esperança machucada: na parede da cela o desenho de um corpo de mulher combina o desejo com o coração bordado numa toalha. ‘‘Aqui as pessoas têm ritmo de vida, o olhar tem expressão. No isolamento do asilo o signo é outro. É a tradução do abandono’’, explica Ricardo.
Tem muito mais para ser descoberto à medida que o trabalho avança, mas já dá para sentir o sabor das existências represadas. ‘‘O que acabei vendo é que as pessoas estão num processo de isolamento, de solidão, de tristeza profunda. Isso se reflete em tudo, é um traço muito presente na sociedade contemporânea. Até agora foi o que mais me impressionou’’, conta o fotógrafo.
Com dez anos de profissão, duas coletivas e a primeira individual que está vindo aí, Ricardo Almeida quer concluir o projeto com uma grande exposição e a edição de um livro. Seu interesse é que as pessoas tenham acesso a esses flagrantes e possam questionar essas situações. Afinal, a comunicação silenciosa existente entre os habitantes desses mundos também faz parte do trabalho.

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