Capricho musical de uma divindade
Não é por nada não, mas Milton Nascimento está forçando, ultimamente, seus devotos a encostar joelhos no chão e aceitar resignados e agradecidos as poucas graças recebidas por ora. São lindas, todas elas, as canções de Crooner. O disco está longe de ser um produto banal já que foi concebido sob as bênçãos do melhor intérprete do Brasil, Milton Nascimento, de um dos mais competentes músicos e arranjadores, Wagner Tiso, e do mais sensível produtor fonográfico, Guto Graça Mello. Mesmo cercado de todo o zelo, trata-se de um trabalho que não pode ser colocado na mesma sacristia onde estão guardadas relíquias sagradas como Sentinela, Milagre dos Peixes ou, mais recentemente, Tambores de Minas.
Crooner é apenas um disco para aquietar a alma dos devotos, aliás, fãs de Milton Nascimento que certamente não vão querer se atentar ao fato de que Castigo (Dolores Duran) já deu o que tinha que dar. Em Crooner, o cantor e compositor mineiro coloca Michael Jackson e Acyr Pires Vermelho ou mesmo Alvin L. e João de Barro em pé de igualdade. Ou seja, num mesmo copo de liquidificador foram colocadas e batidas por infindáveis minutos as mais disparatadas tendências e estilos musicais.
Deu um caldo leve que não faz mal a ninguém, mas que se tomado frequentemente pode enjoar. Em outras palavras, Crooner é um disco para ser sorvido vez em quando. É fato que Milton redesenhou competentemente certas canções. Porém, esqueceu-se de colocar um pouco mais de emoção na maioria delas. Rompantes interpretativos maiores podem ser percebidos em Frenesi ou mesmo em Beat it, de Michael Jackson, que é a melhor faixa do disco. Mas ouvi-lo cantar Only You já é pedir demais.
Pode parecer uma ironia, mas Milton se sai melhor cantando músicas de compositores mais jovens do que medalhões. É mais prazeroso ouvi-lo cantando Resposta (Samuel Rosa-Nando Reis) e Não Sei Dançar (Alvin L.) do que Lamento no Morro (Tom Jobim-Vinícius de Morais). Mas não sejamos ingratos assim com nossos totens - Jair Amorim e Alcyr Pires Vermelho salvam a pátria com Se Alguém Telefonar. Uma tetéia.
Não custa nada ouvir Crooner. No entanto é bom que se frise: por mais comovente e bem-intencionado que seja, esse disco é apenas um capricho de uma divindade que há muito tempo não promove milagres capazes de arrancar quilométricos ohs de seus devotos. (A.M.J.)





