Diversificar os papéis que interpreta na tevê já estava nos planos de Murilo Rosa. Depois de emendar uma sequência de heróis românticos – como o Solano de "Araguaia", o Lucas de "Caminho das Índias" e o Miguel de "Desejo Proibido", entre outros, – ele queria mesmo era encarnar um vilão. Assim que a trama de Walther Negrão chegou ao fim, divulgou para todos na Globo a sua vontade. Inclusive, para Marcos Schechtman, que havia dirigido "Araguaia".
E foi o próprio diretor que convidou Murilo para viver o capitão Élcio, em "Salve Jorge". "Era exatamente o tipo de papel que eu queria fazer", assegura. "Estreei na Globo como um vilão, em 'Chiquinha Gonzaga'. Mas, depois disso, fiz só personagens engraçados ou românticos ou sérios. Estava com essa vontade e aceitei de cara", completa.
Na televisão desde 1994, quando atuou em "74.5 – Uma Onda no Ar", exibida pela extinta Manchete, e em "Confissões de Adolescente", da TV Cultura, Murilo procura não limitar sua área de trabalho. Para ele, fazer cinema e teatro influencia diretamente na qualidade de seus personagens da tevê e vice-versa. "Acho que o ator tem de estar disponível para o bom papel, apenas isso. O resto vem", simplifica.
Mas o discurso de Murilo é bem realista no que diz respeito à dramaturgia no Brasil. "Se você quer ser um ator profissional, sustentar seu filho, sua família, vai ter de acontecer em vários lugares: na televisão, no teatro, fazer bons filmes, entrar no mercado publicitário, que é uma coisa para poucos", avisa.

Na trama de Gloria Perez, Élcio é o antagonista do mocinho Théo, de Rodrigo Lombardi. Mas, apesar disso, o personagem tem momentos de descontração e humor. Como dosar esses dois lados?
O espectador é muito preso a uma boa lágrima, a um bom beijo, ao bom humor. E o Élcio é mulherengo, tem humor, que é um sinal de inteligência, e dureza nas horas certas. Eu sempre quis que esse personagem fosse um vilão que tivesse o seu tempero. Sempre quis ele aprontasse, mas que tivesse seu poder de sedução, como todo bom vilão eu acho que tem de ter. Como diz o Sérgio Britto (ator, diretor e roteirista) quando você entra no palco: as pessoas têm de ter vontade de te ver. O Élcio quer derrubar o Théo. Mas eu sempre quis fazer desse personagem um cara que as pessoas, de uma certa forma, não gostassem, mas que também se sentissem atraídas.

Na televisão, geralmente, você é mais visto na pele de mocinhos. A que atribui essa escalação recorrente?
A televisão acaba sendo um lugar em que querem aproveitar o mais identificável. Acho que foi dando certo e foi se repetindo. Mas, ao mesmo tempo em que existe um rótulo por fora, são personagens diferentes. Fiz o Solano, que era um domador de cavalo; um padre, em "Desejo Proibido"; o Dinho, em "América", era um personagem mais cômico. Mas todos com essa conotação de herói. Então, acho que é bom dar uma quebrada. No cinema, as pessoas têm me chamado para várias outras funções.

O posto de galã, que tanto acompanha sua trajetória, já incomodou você?
Não. Nunca incomodou e acho que nunca prejudicou. Na verdade, eu tenho um tipo físico bem normal, de um cara brasileiro, tendo uma tendência a um tipo mais europeu. Mas com o meu perfil posso fazer qualquer personagem. Acho que o galã está muito mais ligado à sedução, ao poder que você tem de seduzir, do que ao tipo físico.

Você já fez muitos trabalhos de época. Entre eles, "Xica da Silva", exibida pela Manchete em 1996, "Chiquinha Gonzaga", de 1999, e "A Casa das Sete Mulheres", de 2003, entre outros. Com tantas obras nesse estilo no currículo, também era um desejo seu atuar mais em produções contemporâneas?
Como eu sempre fiz muita época, sempre quis fazer trabalhos mais contemporâneos. Se for ver meus trabalhos na Globo, muitos são de época. Então, sempre quis fazer papéis contemporâneos assim como o Élcio. Acho que é mais fácil fazer uma coisa atual.

Quando você decidiu se dedicar à interpretação, no início dos anos 1990, em algum momento, fazer televisão passou a ser um objetivo de carreira?
Sim. É balela essa coisa de falar: "Ah, eu só faço teatro". O ator que quer ser profissional vai querer ser um ator de cinema, de televisão e de teatro. A coisa mais hipócrita que eu já escutei na minha vida é quando vejo um ator falando: "Não quero fazer televisão". Até aparecer uma oportunidade. E eu estou falando isso porque já passei por essa fase na escola de teatro. Bicho grilo, barba grande, estudando Tchekhov (Anton, dramaturgo russo) e cheio de teorias... A dramaturgia brasileira é a melhor do mundo. Para mim, a Globo faz um trabalho excepcional. Então, só se você for burro para não querer fazer parte disso.

Você se mudou de Brasília para o Rio de Janeiro, em 1992, para estudar teatro. E sua estreia na tevê foi dois anos depois – um processo, relativamente, rápido. Que recordações têm daquela época?
Vim na cara e na coragem para fazer escola de teatro e rolou. Vim com o apoio dos meus pais, mas sem um emprego. Uma prima distante do meu pai indicou uma outra escola de teatro – eu já tinha feito, durante um tempo, um curso profissionalizante em Brasília. No Rio, entrei em uma escola de teatro, fiquei um tempo e fui parar no Tablado, onde comecei a fazer uma peça com a Maria Clara Machado. As coisas foram acontecendo. Eu vim muito focado. Meu pai e minha mãe sempre foram exemplos de pessoas que ralaram muito. Então, vim com um objetivo: tinha de dar certo.

E acredita que chegou onde imaginava estar?
Estou caminhando. Mas acho que está tudo certo, tudo indo bem.

Com mais de 20 trabalhos na tevê, que personagem destaca em sua trajetória?
É tão complicado isso porque primeiro trabalho é primeiro trabalho, que foi "74.5 – Uma Onda no Ar". Depois, a gente brincava e chamava de "74.5 – Uma Bomba no Ar". Mas eu vesti a camisa. Lembro até hoje que fui assistir a uma peça, em 94, e o ator que fazia a peça era da Globo. E ele fez uma brincadeira no palco sacaneando, falando o nome da novela, menosprezando. Fiquei com tanta raiva naquele momento. É o seu trabalho, né? O personagem CD – Carlos Daniel – foi meu primeiro e começou a assumir responsabilidades na trama. A novela não foi boa, mas foi importante para mim. Acho que todo personagem é. Internamente, eu valorizo quase todos.

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