'Capitã Marvel' pode ser um clássico
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quarta-feira, 13 de março de 2019
Carlos Eduardo Lourenço Jorge <br> Especial para Folha 2 
Embora Superman tenha indicado o caminho a seguir para se mostrar extraordinariamente poderoso, os super-heróis que acabam por conquistar em definitivo as plateias são aqueles que tem mais problemas para resolver as questões mais complicadas, vale dizer, para salvar o dia. As grandes entidades heroicas dos comics, capazes de praticamente tudo e imunes a inimigos terríveis, provaram ser os personagens mais complexos de adaptar para outros meios, cinema em especial. Por sorte, "Capitã Marvel" oferece os ingredientes necessários para que Carol Danvers se converta na Vingadora definitiva sem deixar de interessar ao mais faminto dos fãs.

O 21º filme do Marvel Cinematic Universe (MCU) é também a primeira com uma protagonista feminina. Dirigido a quatro mãos por Anna Boden e Ryan Fleck (a dupla dirigiu um cult em 2006, "Half Nelson", com Ryan Gosling concorrendo ao Oscar de melhor ator), "Capitã Marvel" aposta (e se sai bem) na atriz Brie Larson no papel de heroína num filme que é uma espécie de novo exercício de nostalgia, neste caso focado na década de 1990. A trama abre com uma dupla homenagem a Stan Lee, patriarca da Marvel recentemente falecido, e fecha com as habituais cenas colocadas durante e depois dos créditos finais, que entre outras coisas (que é melhor não revelar) nos informam que a protagonista regressará daqui a mais ou menos 60 dias em "Vingadores: Ultimato".
Assim como DC Comics produziu "Mulher Maravilha", sua rival responde agora com esta super-heroína. Elas chegaram para ficar e terminar de vez com o monopólio masculino - que em inúmeros aspectos exaltavam tramas e personagens decididamente machista. Quem esperou por este advento (com suas ótimas tiradas naturalmente feministas) vê agora Brie Larson, há três anos ganhadora do Oscar por "O Quarto", comandando um filme da MCU depois nada menos 20 produções da grife da ultima década. Além da louvável mudança de paradigma, "Capitã Marvel" é uma aposta bastante clássica - e em certos aspectos convencional.
O início (desnecessariamente complicado por um forçado "chiaroscuro" da fotografia) narra o confronto entre os Kree e os Skrull (este prólogo remete por momentos a "Star Trek", "Superman" e faz referencias marvelianas rápidas a "Guardiões da Galáxia"). A trama prossegue com a crise de identidade e as origens do personagem central de Carol, também conhecida como Danvers (Vers), uma ex-piloto da força aérea (rápida referência a "Top Gun". Para em seguida tomar forma de buddy cop com Brie Larson e o sempre incansável (e aqui digitalmente renovado) Samuel L. Jackson interagindo à vontade e esnobando química. Alguns dos melhores momentos do filme estão aqui, na Los Angeles de 1995: exibição de pura nostalgia (marcas como Blockbuster e RadioShack, tecnologia obsoleta, canções do Nirvana e REM entre outras bandas da época. Bobagem querer esclarecer a trama, na qual nada é o que parece. Mas há pistas para se descobrir onde e como tudo começou.
É uma pena que os realizadores não foram capazes de lembrar que uma das características dos grandes sucessos da década de 1990, aqui tão bem recuperada, foi que os filmes tinham duração média de 100 minutos. E não se pode esquecer a referência à participação felina quase protagonica: este gato Goose (Chewie nos quadrinhos da Marvel) das galáxias, também conhecido por Flerken, raça alienígena capaz de muitas e inacreditáveis proezas, é um dos charmes do filme. E com certeza já tem lugar garantido no elenco das sequelas que virão pela década 20.


