Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Um cão com fome é capaz de comer qualquer coisa. Um homem com fome é capaz de comer qualquer coisa. Um cão com fome e escaldado por inúmeras porradas, não aceita um prato de comida de maneira imediata e servil. Um homem com fome, depois de inúmeras porradas, é capaz de aceitar um prato de comida de maneira absolutamente servil. Um cão estuda todo o contexto e as intenções de quem serve o alimento, avalia se a situação é confiável ou não. Um homem, de maneira geral, leva mais em conta seu estômago do que sua integridade, sua moral, sua ética e sua liberdade. A conclusão é lógica: tanto o homem pode ser um cachorro como um cachorro pode ser um homem.
Enquanto o homem procura menosprezar o cão enquanto animal, algumas obras literárias realizam caminho inverso. Conferem maior humanidade aos cães do que os próprios homens. Deslocam as qualidades ideais e imaginadas da humanidade para o interior das almas dos cachorros. Resumindo: colocam um coração humano no peito dos cães.
É o que o escritor norte-americano Paul Auster realiza em seu mais recente romance, ‘‘Timbuktu’’, que acaba de ser lançado pela Editora Companhia das Letras. Auster conta a história de um vira-lata chamado Mr. Bones ao lado de seu dono, o andarilho Willy. Uma história narrada do ponto de vista do próprio animal.
Willy, é um jovem poeta deslocado do mundo. Numa noite alcoolizada, Papai Noel aparece na televisão e conversa com Willy. O velho Noel, além de puxar a orelha do rapaz por levar uma vida sem sentido, confere-lhe uma missão, a missão da bondade. A partir desse dia, o jovem torna-se um andarilho, um mendigo perambulando pelas estradas sem destino. Entre um descanso e outro, escreve poesia. Após várias surras e assaltos, resolve adotar um cachorro para proteção. Aí aparece Mr. Bones, um vira-lata que passa a ser a eterna companhia de Willy até sua morte.
Entre os delírios de Willy está Timbuktu, um lugar imaginário onde a alma dos mortos descansam. Mr. Bones é fascinado pelo lugar, mas é povoado por dúvidas se os cachorros, após a morte, terão acesso ao Timbuktu. Como é um cão que compreende a linguagem humana, acredita que poderá ser aceito neste suposto paraíso.
Pode-se fazer uma analogia de ‘‘Timbuktu’’ de Paul Auster com ‘‘O Chamado Selvagem’’ de Jack London (1876 - 1916). Auster constrói um enredo que realiza o caminho inverso ao da história de London. Se em ‘‘O Chamado Selvagem’’ narra a trajetória do cão Buck do mundo dos homens para o mundo selvagem, da domesticação para a liberdade, em ‘‘Timbuktu’’ o cão Mr. Bones faz o caminho contrário, parte da liberdade para a domesticação em nome de uma suposta comodidade. Mas no último momento Mr. Bones volta atrás e parte para a reconquista da liberdade, desta vez a caminho de Timbuktu.
‘‘Timbuktu’’ é um romance descrito como fábula contemporânea. Se isso estiver correto, pode ser considerado como um fábula subjetiva sobre a liberdade e sevidão. Mr. Bones é servil ao seu dono porque vive em liberdade. Ou seja, sendo um vagabundo, seu dono vive em completa liberdade, e além da amizade, a única coisa que pode oferecer ao cachorro é exatamente a liberdade. Mais que isso, ensina-o a defender sua liberdade, sua autonomia enquanto ser.
Para o leitor que conhece outras obras de Auster, uma das principais vozes da literatura norte-americana da atualidade, encontrará em ‘‘Timbuktu’’ o universo recorrente de outras obras. O final do romance pode ser identificado com o final de outro romance de Auster, ‘‘Música do Acaso’’ (Editora Best Seller, 1990). O aprendizado de Mr. Bones é semelhante ao aprendizado de Walt, personagem de ‘‘Mr. Vertigo’’ (Editora Best Seller, 1994), outra obra do escritor. Não trata-se de mera repetição, mas a obsessão de uma mensagem.
A Companhia das Letras também está lançando o primeira obra em prosa de Paul Auster que durante anos se dedicou apenas à poesia. ‘‘O Inventor da Solidão’’ publicado originalmente em 1982 é composto por dois textos. O primeiro, ‘‘Retrato de um Homem Invisível’’, é um relato auto-biográfico. Após a súbita morte do pai, que gozava de perfeita saúde e inesperadamente caiu da cadeira, morto, Auster começou a escrever um texto como exercício de faxina do próprio passado. Pode ser descrito como uma espécie de ‘‘Carta ao Pai’’ de Franz Kafka, um acerto de contas emocional. Investiga sua vivência quanto filho para depois investigá-la como pai.
O segundo texto de ‘‘O Inventor da Solidão’’, intitulado ‘‘O Livro da Memória’’, foi escrito como resposta ao primeiro. Constituído de várias vozes intercalando passado e presente, ensaio e ao mesmo tempo ficção, aborda os labirintos da memória. Auster define sua intenção da seguinte forma: ‘‘A questão central é a memória. Assim, em certo sentido, tudo o que ocorre nela é simultâneo. Mas escrever é sequêncial, se desenrola no tempo. Então meu maior problema foi tentar pôr as coisas na ordem correta. O objetivo era ser o mais honesto possível em cada frase. Eu queria escrever uma obra que expusesse tudo. Não queria derrubar a fronteira entre minha vida e a literatura o máximo possível’’. Examinando a solidão, chegou a conclusão de que a própria solidão é um verdadeiro paradoxo: ‘‘Tentei examinar os dois lados da palavra ‘‘solidão’. Senti como se estivesse olhando até o fundo de mim mesmo e o que encontrei ali foi mais do que apenas eu. Eu encontrei o mundo.’’
O que Paul Auster demonstra é que a solidão pode ser uma cadeira onde as pessoas podem se sentar para melhor compreender a si mesmo. E quanto mais intensamente sentadas, maior compreensão terão sobre a relação com o outro. Nada mais do que a descoberta de que somos habitados pelas pessoas com quem nos relacionamos, direta ou indiretamente.
A solidão é povoada pela memória. E a memória não é simplesmente a memória de si mesmo, mas também a memória do outro. Nesse sentido, se a solidão é ocupada pelo memória do outro (ou outros), seria incorreto afirmar que estar sozinho é estar só. Estar sozinho é mais que estar só, é ter a memória do outro dentro de si. Solidão não seria estar privado da presença física das pessoas. Solidão seria a companhia das pessoas no interior da mente. Um paradoxo sedutor.
‘‘Timbuktu’’ de Paul Auster, Editora Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo, 144 páginas, R$ 19,00.
‘‘A Invenção da Solidão’’ de Paul Auster, Editora Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo, 195 páginas, R$ 20,50.

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