Cantos do além-mar
''Mar de Sophia'' e ''Pirata'' provêm de um mesmo tema e não necessariamente se complementam, embora seja bom mergulhar no universo aquático, digamos assim, idealizado por Maria Bethânia. As narrativas são conduzidas por metáforas e analogias ora sutis, ora licenciosas e particularmentes encaixadas. Agudeza de percepção é requerida sim. O mar de Bethânia oferece incríveis possibilidades de leituras que vão desde a reafirmada ligação dela com a poesia lusitana - no caso, palavras de Sophia de Mello Breyner - até a chegada ao Brasil das divindades africanas e seus cantos e mitos e mistérios.
''Mar de Sophia'' abre com ''Canto de Oxum'', reverência de Toquinho e Vinicius de Moraes à orixá das doces águas, para em seguida saudar a quem por domínio pertence na mitologia afro: ''Iemanjá, Rainha do Mar''(Paulo César Pinheiro e Pedro Amorim). Coube a Roberto Mendes e ao poeta Capinan desenvolver e resumir em música e letra o projeto ''Dentro do Mar Tem Rio'', frase de uma senhora baiana que Bethânia ouviu e intrigada ficou, na evocativa ''Beira-mar'', uma das faixas mais bonitas. Compositores de era mais recente ganham visibilidade entre eles Jota Velloso (''Kirimurê''), Chico César e Márcio Arantes (na agreste ''Grão de Mar'') ou mesmo Arnaldo Antunes na feliz combinação de ''Debaixo D'água'' com ''Agora'' (de todos os atuais e ex-Titãs) que desenha-se como um rap. Eis o momento particularmente mais pop de ''Mar de Sophia''.
O encarte contém fotos de águas que mais parecem cristais, trabalho interessantíssimo do japonês June Murakawa. A trilha sonora percorre o intimismo e euforia, por vezes na poesia de Sophia de Mello Breyner (''Mar/ metade de minha alma é feita /de maresia'', na confessional '' Atlântico'') - até a releitura do samba enredo '' Das Maravilhas do Mar Fez-se o Esplendor de Uma Noite''. O trabalho encerra-se com ''Canto de Nanã'' (Dorival Caymmi), divindade das profundas águas, dos pântanos. Sofisticação à parte, ''Mar de Sophia'' tem ambientação sonora do percussionista Naná Vasconcelos.
''Pirata'' envolve-se em distinto refinamento mais popular de canções clássicas ilustradas em ''O Tempo e o Rio'' (Edu Lobo e Capinan) e ''Os Argonautas'' (Caetano Veloso) - outra contraposição clamando pelo verde mar (azul para alguns) , mas que no contexto de Bethânia desdobra-se nos domínios amarelos das águas de Oxum - , em temas folclóricos e/ou canções arquivadas no inconsciente coletivo - ''A Saudade Mata a Gente'' (João de Barro e Antônio Almeida) ou mesmo ''Serenô''. Fragmentos de poemas de Guimarães Rosa dominam praticamente o disco (''Amor é sede depois se ter bem bebido'', diz Bethânia em determinado momento).
Há mais por deitar em confortável leito. ''Poesia'', de Antonio Vieira, poeta de Santo Amaro da Purificação, cidade onde nasceu Bethânia e Caetano Veloso, conclama doce e incisivamente um olhar atento aos poetas populares. Diz um trecho: ''O aluno devia bater palma/ Saber de cada um o nome todo/ Se sentir satisfeito e orgulhoso/ E falar deles para os de menor de idade/ Os nomes dos poetas populares''.
Os amores se banham em águas, mas qual a mais apropriada? A resposta vem em ''Memória das Águas'' (Roberto Mendes - Jorge Portugal) que assim diz: ''Amores são águas doces/ paixões são águas salgadas/ Queria que a vida fosse/ Essas águas misturadas''. Sabe ''aquela'' que cada disco contém. Pois bem em ''Pirata'' Jorge Vercilo e Ana Carolina endereçaram à voz potente de Bethânia ''Eu que Não Sei Quase Nada do Mar'' com seu erotismo suave e confissões (''Já não tenho medo de saber quem somos/ na escuridão). Lindo! Lindo!!
''Mar de Sophia'' e ''Pirata'' emocionam. São capazes de trazer alentos até mesmo para quem deixou as águas levarem sonhos, amores e, principalmente, reminiscências. Vêm de Maria Bethânia. Precisa dizer algo mais?!(A.M.J.)





