Cantora ressurge em disco inspirado
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segunda-feira, 15 de maio de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Um dos capítulos do festejado livro de memórias Noites Tropicais, de Nelson Motta, traz Marisa Monte como personagem central da narrativa. A surpresa é que ela aparece no relato não apenas como a garota talentosa cuja carreira o autor ajudou a impulsionar, mas como objeto de um desejo amoroso frustrado.
Motta não se limita a revisitar a trajetória da parceria artística, que reconstitui desde os míticos primeiros shows no Rio até a gravação do consagrador disco de estréia em 1989, mas traz à luz também os bastidores da relação revelando como se apaixonou pela cantora e o quanto sofreu para domar as dores do ciúmes, da perda e da impossibilidade.
Sem qualquer referência direta ao caso, Marisa elegeu justamente o amor e suas várias facetas como tema de seu novo álbum Memórias, Crônicas e Declarações de Amor. O disco chega às lojas em duas versões uma delas em tiragem limitada de luxo, acompanhada de um livro contendo letras e fotos. Nas fotos, ela aparece em vários ângulos, situações e recortes não deixando de fora nem os clicks fora de foco e um close dos pés (pouco atraentes, por sinal) em seu sarampo narcísico.
Todas as fotos foram tiradas pela própria cantora e compositora com sua câmera digital, o que dá bem uma idéia do caráter autoral da empreitada. Marisa assina a produção do disco ao lado de Arto Lindsy, com quem trabalhou nos três últimos CDs. Assina também 7 das 13 composições, além de tocar violão e guitarra em várias faixas.
O CD é o segundo a sair pelo selo Phonomotor (distribuído pela EMI), criado por ela e inaugurado em fevereiro com Tudo Azul, reunindo a Velha Guarda da Portela. Mais inspirada do que nunca, Marisa fez um álbum quase impecável, talvez o melhor de sua carreira. É, pelo menos, o mais cantarolável com potencial para superar os anteriores em execução em rádios e vendagem de cópias.
Para compor o repertório, manteve os parceiros habituais Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, além de retomar regravações de Tim Maia, Jorge Benjor, Paulinho da Viola e Nelson Cavaquinho. Entre as novidades, incluiu inéditas de Caetano Veloso e do novato Lucas Santtana. Mas como nem tudo é perfeito, escolheu a fraca balada Amor I Love You como a primeira faixa de trabalho do disco.
O clipe estreou ontem na MTV, trazendo Marisa e Arnaldo Antunes em trajes do século dezenove. Na música, a melodia enjoativa e a letra tolinha oferecem-se como um bagageiro para a intervenção-mala do ex-Titãs, que recita um trecho do livro Primo Basílio, de Eça de Queiróz. O verniz culto, porém, só amplifica o escorregão. Mas é o único deslize do disco. O restante das faixas redime completamente a cantora.
Esbanjando precisão nos vocais, ela ilumina cada sílaba que canta, como na delicada Sou Seu Sabiá, a inédita de Caetano com participação especial de João Donato ao piano. Em Não É Fácil, um dos prováveis hits do disco, Marisa fala de saudade e escancara a veia pop. Não é fácil / Não pensar em você / Não é fácil / É estranho / Não te contar meus planos / Não te encontrar canta ela.
Pop também é Não Vá Embora, a mais dançante e roqueira do repertório, com surdos virados sobrepondo-se à bateria. Há ainda a levada funk de Cinco Minutos, de Jorge Benjor, na qual sua interpretação lembra Marina, quando esta ainda tinha voz. O Que Me Importa, garimpada de um disco dos anos 70 de Tim Maia, é trilha para corações partidos com direito a um piano derramado no final.
Essa também virou clipe, assim como Gentileza, dedicada a um andarilho carioca homônimo morto em 1996. A Marisa cool desponta na melancólica Abololô, reforçada pelo piano de João Donato. Mas é na reverência aos grandes compositores da música popular brasileira que o disco vai para as alturas e se candidata a melhor do ano. No samba Para Ver as Meninas, de Paulinho da Viola, o arranjo colide o cello de Jaques Morelembaun e o cavaquinho de Mauro Diniz com os ruídos insólitos (que parecem defeitos de gravação) da guitarra de Arto Lindsy.
É a faixa mais bonita do álbum ao lado de Gota Luas, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, extraída de um velho long-play que Marisa adquiriu num sebo. Memórias, Crônicas e Declarações de Amor chega às lojas depois de um intervalo de quatro anos, desde o lançamento de Barulhinho Bom. É o quinto disco de sua carreira.
Para promovê-lo, a cantora não esqueceu da Internet atualizando o site (www.marisamonte.com.br) com biografia, notícias, uma rádio, muitas fotos e as datas da nova turnê que tem estréia marcada para o dia 2 de junho em Curitiba.


