Um dos capítulos do festejado livro de memórias ‘‘Noites Tropicais’’, de Nelson Motta, traz Marisa Monte como personagem central da narrativa. A surpresa é que ela aparece no relato não apenas como a garota talentosa cuja carreira o autor ajudou a impulsionar, mas como objeto de um desejo amoroso frustrado.
Motta não se limita a revisitar a trajetória da parceria artística, que reconstitui desde os míticos primeiros shows no Rio até a gravação do consagrador disco de estréia em 1989, mas traz à luz também os bastidores da relação revelando como se apaixonou pela cantora e o quanto sofreu para domar as dores do ciúmes, da perda e da impossibilidade.
Sem qualquer referência direta ao caso, Marisa elegeu justamente o amor e suas várias facetas como tema de seu novo álbum Memórias, Crônicas e Declarações de Amor. O disco chega às lojas em duas versões – uma delas em tiragem limitada de luxo, acompanhada de um livro contendo letras e fotos. Nas fotos, ela aparece em vários ângulos, situações e recortes não deixando de fora nem os clicks fora de foco e um ‘‘close’’ dos pés (pouco atraentes, por sinal) em seu sarampo narcísico.
Todas as fotos foram tiradas pela própria cantora e compositora com sua câmera digital, o que dá bem uma idéia do caráter ‘‘autoral’’ da empreitada. Marisa assina a produção do disco ao lado de Arto Lindsy, com quem trabalhou nos três últimos CDs. Assina também 7 das 13 composições, além de tocar violão e guitarra em várias faixas.
O CD é o segundo a sair pelo selo Phonomotor (distribuído pela EMI), criado por ela e inaugurado em fevereiro com ‘‘Tudo Azul’’, reunindo a Velha Guarda da Portela. Mais inspirada do que nunca, Marisa fez um álbum quase impecável, talvez o melhor de sua carreira. É, pelo menos, o mais cantarolável com potencial para superar os anteriores em execução em rádios e vendagem de cópias.
Para compor o repertório, manteve os parceiros habituais Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, além de retomar regravações de Tim Maia, Jorge Benjor, Paulinho da Viola e Nelson Cavaquinho. Entre as novidades, incluiu inéditas de Caetano Veloso e do novato Lucas Santtana. Mas como nem tudo é perfeito, escolheu a fraca balada ‘‘Amor I Love You’’ como a primeira faixa de trabalho do disco.
O clipe estreou ontem na MTV, trazendo Marisa e Arnaldo Antunes em trajes do século dezenove. Na música, a melodia enjoativa e a letra tolinha oferecem-se como um bagageiro para a intervenção-mala do ex-Titãs, que recita um trecho do livro ‘‘Primo Basílio’’, de Eça de Queiróz. O verniz ‘‘culto’’, porém, só amplifica o escorregão. Mas é o único deslize do disco. O restante das faixas redime completamente a cantora.
Esbanjando precisão nos vocais, ela ilumina cada sílaba que canta, como na delicada ‘‘Sou Seu Sabiᒒ, a inédita de Caetano com participação especial de João Donato ao piano. Em ‘‘Não É Fácil’’, um dos prováveis hits do disco, Marisa fala de saudade e escancara a veia pop. ‘‘Não é fácil / Não pensar em você / Não é fácil / É estranho / Não te contar meus planos / Não te encontrar’’ – canta ela.
Pop também é ‘‘Não Vá Embora’’, a mais dançante e roqueira do repertório, com surdos virados sobrepondo-se à bateria. Há ainda a levada funk de ‘‘Cinco Minutos’’, de Jorge Benjor, na qual sua interpretação lembra Marina, quando esta ainda tinha voz. ‘‘O Que Me Importa’’, garimpada de um disco dos anos 70 de Tim Maia, é trilha para corações partidos com direito a um piano derramado no final.
Essa também virou clipe, assim como ‘‘Gentileza’’, dedicada a um andarilho carioca homônimo morto em 1996. A Marisa cool desponta na melancólica ‘‘Abololô’’, reforçada pelo piano de João Donato. Mas é na reverência aos grandes compositores da música popular brasileira que o disco vai para as alturas e se candidata a melhor do ano. No samba ‘‘Para Ver as Meninas’’, de Paulinho da Viola, o arranjo colide o cello de Jaques Morelembaun e o cavaquinho de Mauro Diniz com os ruídos insólitos (que parecem defeitos de gravação) da guitarra de Arto Lindsy.
É a faixa mais bonita do álbum ao lado de ‘‘Gota Luas’’, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, extraída de um velho long-play que Marisa adquiriu num sebo. Memórias, Crônicas e Declarações de Amor chega às lojas depois de um intervalo de quatro anos, desde o lançamento de Barulhinho Bom. É o quinto disco de sua carreira.
Para promovê-lo, a cantora não esqueceu da Internet atualizando o site (www.marisamonte.com.br) com biografia, notícias, uma rádio, muitas fotos e as datas da nova turnê que tem estréia marcada para o dia 2 de junho em Curitiba.

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