Canto e solidão no mundo de Maria Callas
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quinta-feira, 28 de agosto de 1997
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
João Caldas/DivulgaçãoMarília Pêra: Callas era realmente exigente, mas o autor pintou com cores mais fortes o autoritarismo delaPrepare-se. Estamos num dia de outubro de 1971 e Maria Callas, a grande diva da ópera, está de volta à cidade natal, Nova York, onde nasceu em 1923. Beirando os 50 anos, está mergulhada num mar de angústia e problemas existenciais - abandonou o marido para casar-se com o armador grego, Aristóteles Onassis, mas por este foi abandonada duas horas antes do casamento. A voz já não é a mesma, há cinco anos ela não sobe ao palco. E hoje vai dar uma aula magna, ou master class, na famosa Julliard School. A prova de fogo é sua.
Master Class, o premiado espetáculo vivido por Marília Pêra no papel de Callas, estréia hoje no grande auditório do Teatro Guaíra. O texto de Terrence McNally, ganhador de três Tony, nos Estados Unidos, teve Faye Dunaway como protagonista em Miami, e a estrela Zoe Caldwell, na Broadway. Marília Pêra ocupa o posto no Brasil.
A atriz coloca-se na carne e nas dores de um mito fragilizado, exposto à curiosidade pública com os acontecimentos desagradáveis dos últimos anos. Ela tem pela frente alunos de alto nível, que terão aulas públicas durante seis semanas, em dois períodos: de outubro a novembro de 1971 e de fevereiro a março de 1972.
A mágoa mistura-se ao temperamento explosivo da artista. Callas estava com o ego destruído. Um cantor precisa de ego, coragem e força para cantar, explica Marília, compreendendo os dramas da personagem.
Mesmo sendo de difícil temperamento, o soprano ainda assim deveria ser mais ameno do que a peça reflete. Callas era realmente exigente, mas o autor pintou com cores mais fortes o autoritarismo dela, o que provoca muito riso, segundo a atriz.
Maria CallasFilha de imigrantes gregos, Cecília Sofia Anna Maria Calogeropoulous veio ao mundo no dia 2 de dezembro de 1923. Uma violenta tempestade açoitava Nova York e, segundo sua mãe, viria a influenciar no temperamento da criança que cresceu tímida e insegura.
Aos 10 anos canta árias de Carmen, demonstrando seu talento musical. A mãe incentiva o dote artístico da filha. Em 1937 as duas viajam à Grécia para Cecília estudar canto. Aos 17 anos ingressa no Conservatório de Atenas, onde passa a ter aulas com Elvira de Hidalgo, que se torna a pessoa de maior influência na sua carreira.
Em 1945 retorna aos Estados Unidos, na tentativa de livrar-se das garras dominadoras da mãe. Embarca para Verona onde fará o papel principal em La Gioconda. Aí conhece o maestro Túlio Serafin, que se torna seu mentor artístico, e Giovanni Battista Meneghini, rico industrial 30 anos mais velho, com quem se casaria mais tarde.
AscensãoAo estrear no La Scala de Milão, substituindo Renata Tebaldi em duas apresentações de Aída, Callas acelera a caminhada em direção à celebridade. Logo se torna a maior estrela da companhia. Suas brigas com o Scala de Milão e o Metropolitan de Nova York são exploradas pelos inimigos. Rumorosos escândalos dão à cantora a fama de temperamental. Ganha o apelido de A Tigresa.
Mais lenha na fogueira: em 1959 Maria Callas troca Meneghini por Onassis. Apaixonada, dedica boa parte do seu tempo às festas, iates, viagens - vertigens sociais do mundo do milionário. Afasta-se, assim, dos estudos, do canto e dos teatros.
O divórcio de Meneghini só chega sete anos depois, em 1966. O tão esperado casamento acaba não acontecendo. Uma violenta discussão entre os noivos, duas horas antes da cerimônia, dá por terminado o relacionamento. A pá de cal viria mais tarde, quando Onassis casa-se com Jacqueline Kennedy.
Aula MagnaA saída para a estrela seria o retorno aos palcos, mas problemas vocais e a falta de coragem para reaparecer à cena alongam o drama. Maria atua no filme Medea, de Pasolini, sem cantar, e a experiência é frustrante. Pensa em dirigir uma série de aulas para o Curtis Institute of Music de Filadelfia. Abandona a escola dois dias depois, porque os alunos não tinham suficiente preparo.
Uma segunda tentativa acontece na Juilliard School of Music, de Nova York. Em 1971 examina 300 profissionais. Em 1972, 25. Em 1973, finalmente, retorna aos palcos em companhia de Di Stefano numa turnê mundial. Poderia ser a volta por cima, mas Maria Callas é um peito ferido. Fecha-se em seu apartamento em Paris, onde vem a falecer de uma parada cardíaca em 16 de setembro de 1977, pouco depois da morte de Onassis.
q Master Class , de Terrence McNally, tradução de Millôr Fernandes, direção de Jorge Takla. Com Marília Pêra, Caio Ferraz, Isabel Batista, Julianne Daud, Frederico Vieira e Kleber Brandão. No Guairão, em Curitiba, dias 29 e 30, às 21h, e 31 às 18h. Ingressos: R$ 25,00 (platéia e 1º balcão) e R$ 15,00 (2º balcão).


