Na preparação da abertura de um evento esportivo no Ibirapuera, em São Paulo, reunindo diversas nações indígenas, no ano passado, surgiu a idéia de gravar um cântico guarani para que fosse tocado na solenidade. O resultado impressionou os presentes e chamou a atenção dos índios para a preservação de sua cultura musical.
Interessados em manter a tradição dos cânticos das crianças, comum aos guaranis, quatro aldeias se reuniram para relembrar suas composições: Aldeia Rio Silveira, de São Sebastião; Sapucai, de Angra dos Reis; Morro da Saudade, de Parelheiros; e Guarani Jaexaa Porã, de Ubatuba.
Apoiados pela Comunidade Solidária, as quatro aldeias deram início ao projeto Memória Guarani, que resultou no CD ‘‘¥ande Reko Arandu’’, uma compilação de cânticos interpretados por um coro infantil extraído das próprias comunidades.
Mais do que um artifício para dar retorno financeiro às aldeias, o disco é uma peça de resistência cultural às vésperas das comemorações dos 500 anos de descobrimento. Para os índios, são 500 anos de luta para driblar a influência branca e preservar uma cultura exclusivamente oral, ao mesmo tempo em que discutem os limites de suas terras.
‘‘Hoje, por que gravamos o CD? Porque o guarani sempre foi dono da terra. Mas, através da invasão do Brasil, da colonização, o guarani perdeu sua terra. (...) Através da gravação dos cânticos, a gente vai estar apresentando, também, 500 anos de resistência à dominação dos povos brancos. Através da gravação a gente vai estar em forma de protesto’’, diz o encarte.
A tradição musical guarani é anterior à chegada dos europeus. O baraka, por exemplo, é um violão de cinco cordas feito com casca de tatu ou cedro com afinação própria. Cada corda representa uma entidade religiosa: Tupã, Kuaray, Karaí, Jakairá e Tupã Mirim. Hoje, com a influência branca, os índios utilizam a afinação européia.
‘‘Nós reunimos as crianças para que elas adquirissem novamente o hábito de cantar, que estava perdido. Atualmente, na minha aldeia, existem umas 20 músicas, fora as que entraram no CD’’, comenta Timóteo da Silva, coordenador-geral da Aldeia Morro da Saudade, em entrevista por telefone.
As composições foram recolhidas com os anciãos de cada aldeia, que opinaram nos arranjos e letras. ‘‘Os mais velhos conhecem o canto infantil mas não revelavam porque os mais jovens não tinham curiosidade’’, acrescenta Timóteo.
O CD está repercutindo por outras aldeias do território nacional e a idéia já se amplia inclusive entre outros países. ‘‘Queremos abranger toda a comunidade guarani do Brasil, mas algumas da Argentina, Uruguai e Paraguai já demonstraram interesse de unir e fortalecer cada vez mais esta tradição’’, ressalta. Os participantes do disco já estão com apresentações agendadas para abril em Campo Mourão, Curitiba, Araucária e Florianópolis.
Baseado em instrumentos percussivos com acompanhamentos de baraka, rabeca e melodia entoada por coros infantis, o disco foi gravado diretamente na casa de reza da aldeia de Morro da Saudade. Lá foi instalado todo o equipamento necessário para registrar melodias completamente desconhecidas do homem branco que, na ânsia de comemorar meio milênio de Brasil, dá as costas para povos que se dividiam em 900 nações no período do descobrimento. Após cinco séculos, mal chegam a 180. O disco pode ser adquirido por R$ 20,00 mais despesas de postagem com a Comunidade Solidária pelo telefone (011) 820-8274. A verba será revertida para as aldeias que participam do projeto Memória Guarani.ReproduçãoA tradição musical guarani antecede a chegada dos europeus ao Brasil: o canto das crianças se encarrega de preservar a culturaO CD ‘‘¥ande Reko Arandu’’ reúne músicas guaranis interpretadas por coros infantis de quatro aldeias

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