São Paulo, 29 (AE) - Laurent Cantet chegou ao Brasil no domingo para participar do Festival do Rio 99. Veio direto do Festival de San Sebastián, na Espanha. Só ao chegar, descobriu que seu filme foi um dos vencedores da mostra espanhola. "Ressources Humaines" ganhou numa categoria que associa ao troféu um prêmio em dinheiro. São cerca de US$ 200 mil que Cantet pretende investir no lançamento do filme e nos preparativos do próximo que pretende realizar. O filme que ele está mostrando no Rio é outro.
"Les Sanguinaires" integra, com "O Primeiro Dia", de Walter Salles, o projeto "O Ano 2000 Visto por..." Foi o primeiro longa de Cantet. Antes, ele só havia feito curtas, quase todos ficcionais e premiados em diversos festivais. Sua experiência no curta lhe valeu o convite para o longa. "A única exigência era a de que o filme se situasse no quadro do réveillon do ano 2000", conta. Como o cineasta de Taiwan, Tsai Ming-liang, que assina outro dos títulos do projeto, "The Hole" (O Buraco), Cantet também acredita que a falta de comunicação é, paradoxalmente, a única forma de comunhão entre as pessoas.
"No meu filme, as pessoas querem fugir do réveillon do ano 2000 e refugiam-se numa ilha". O que acontece, a partir daí
ocupa o centro da narrativa. Ao contrário do filme de Salles, que tem duas versões (uma para TV e outra para cinema), o de Cantet tem uma só versão que já estreou na televisão européia. Ele destaca o elemento comum entre todos os filmes, apesar de suas diferenças: "É um certo pessimismo pelo futuro", diz. Após esse primeiro filme, fez "Ressources Humaines", também produzido para TV. É um filme centrado na relação entre pai e filho.
O pai é um operário que sempre militou na vida sindical. Tenta passar seus valores ao filho, produto de uma sociedade neoliberal em que as pessoas estão mais individualistas e as reivindicações de classe não oferecem o mesmo apelo do passado. "Quis discutir o que aconteceu com o sindicalismo tradicional e de que forma ainda podemos lutar por melhorias sociais", afirma Cantet. É um filme construído numa perspectiva de esquerda, mas não militante. "Tem um lado de melodrama muito forte", revela. De todas as críticas que recebeu, a que mais o emociona foi a de uma velha militante sindical espanhola que foi agradecer-lhe pelo filme. "Ela chorava e eu me botei a chorar, também". (L.C.M.)

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