O músico Milton Masciadri estava em Montevidéu para uma apresentação com a Orquestra Sinfônica da cidade quando um sujeito lhe ofereceu um contrabaixo. O vendedor era filho do fundador da orquestra, e o instrumento era antigo e malconservado. Além disso, tinha uma caixa menor que as usuais - daí a dificuldade em negociá-lo.
Mesmo assim, Masciadri aceitou a proposta. O instrumento não era tocado há 25 anos, e o músico levou-o a Nova York para ser restaurado. Durante a reforma, veio a surpresa: o contrabaixo data de 1690. ‘‘Pelos últimos 100 anos eu sei por onde ele esteve, mas antes... Só sei que houve uma restauração em Parma, na Itália, no século passado’’, explica Masciadri.
É justamente esse instrumento que o músico tocará hoje em um concerto pouco usual, onde o contrabaixo atuará como solista, substituindo a voz humana. O espetáculo ‘‘Música de Câmara 2 - Canções com Toque de Contrabaixo’’ será realizado às 20h30 no Cine-Teatro Ouro Verde, em Londrina, dentro da programação do 18º Festival de Música.
O repertório traz peças de Rachmaninnoff, Bottesini, Tchaikovsky, Carlos Gomes, Mozart, Donizetti, Tosti, Verdi e duas peças folclóricas dos Estados Unidos, uma de Foster e um ‘‘spiritual’’. Além de Milton Masciadri no contrabaixo, o concerto terá ainda a participação da soprano Angela Barra, do barítono Lelio Capilupi, de Eva Szekely no violino e de Angiolina Senzale no piano.
A chance de apreciar um show deste tipo é única. Se já é raro ouvir um contrabaixo solar, mais difícil ainda é escutá-lo imitando a voz humana. ‘‘O gostoso deste programa é cantar com o instrumento, mais do que acompanhar. É a primeira vez que se faz uma apresentação deste tipo na América do Sul, é uma combinação difícil. É muito raro cruzar com um grande barítono e uma grande soprano para trabalhar juntos’’, ressalta Masciadri.
A inspiração para um espetáculo como esse veio de um antigo professor: ‘‘Ele havia feito algo parecido com uma mezzo-soprano. Mas a idéia veio do maestro Norton Morozowicz, ao ouvir um disco nosso. Vimos os professores que viriam para o Festival e pensamos em pequenas peças para o público, tratando instrumentos como vozes’’.
Filho e neto de contrabaixistas, Milton Masciadri nasceu no Uruguai, mas foi para Porto Alegre com quatro anos de idade. ‘‘Meu pai não queria que eu tocasse contrabaixo, pois o instrumento tinha problemas de repertório, mais de 90% das vezes faz apenas acompanhamento, e ele sabia que eu desejava solar. Sempre acreditei que o contrabaixo seria um belíssimo solista’’, recorda Masciadri, que hoje é professor da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos.
O músico começou tocando violoncelo e, quando tinha altura suficiente, passou para o contrabaixo. Após se formar em Porto Alegre e lecionar por dois anos na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal, Masciadri foi para os Estados Unidos, onde fez mestrado em Connecticut e doutorado em Nova York.
Ele é um dos poucos contrabaixistas do mundo com uma agenda lotada de concertos como solista. ‘‘No dia 22 de outubro farei uma apresentação em Paris pela Unesco, para as crianças da Bósnia, com um violinista japonês, uma orquestra russa e outro solista da Croácia’’, explica. O músico ainda tem apresentações marcadas na Escócia e na Califórnia, entre outros lugares.
A falta de composições para contrabaixo vem com uma tradição de acompanhamento. ‘‘Em cima de sua base harmônica se costura toda a estrutura para os violinos, as violas e os violoncelos. E a dificuldade técnica colabora para que o instrumento não seja favorecido. As vibrações graves mexem muito com as pessoas, acho que até mais do que as agudas’’, acrescenta.
As dimensões do contrabaixo também geram dificuldades: ‘‘Se eu contar as façanhas que faço para viajar com esse instrumento... Só o tamanho das cordas são 20 vezes mais grossas que as de um violino. Por isso toda a técnica é complicada’’.
Segundo Masciadri, o primeiro compositor - entre os mais conhecidos - a escrever para contrabaixo foi Mozart. Posteriormente, Haydn compôs um concerto, mas as partituras originais foram perdidas.
‘‘Hoje em dia temos muitos contemporâneos escrevendo para o contrabaixo. Brasileiros, inclusive, como o Bruno Kiefer. Ele escreveu uma peça que ficamos de estrear na primeira viagem que eu fizesse ao Brasil, mas lamentavelmente Kiefer morreu um pouco antes’’, revela.
No repertório que mostrará no Ouro Verde, Milton Masciadri fez algumas adaptações: ‘‘A primeira peça é para soprano, mas se presta muito bem para o contrabaixo, pois não tem palavras. São todas peças curtas. Teremos também um Negro Spiritual, com barítono e contrabaixo’’. As outras músicas são árias de óperas italianas, incluindo ‘‘O Ciel de Parahyba’’, de Carlos Gomes, e ‘‘Un Baccio di Mano’’, de Mozart, compostas na Itália.

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